A história que daria um filme

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Nos anos 80, Morimassa Miyazato, o More, foi considerado um “incansável cavaleiro da memória cinematográfica”, segundo a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Residente em Maringá, onde já colaborou com O Diário do Norte do Paraná, na década de 70, ficou famoso pela coleção de 15 mil cartazes e folhetos de cinema, mania que começou na cidade paulista de Dracena, em 1975, quando foi gerente de duas salas de exibição.

Como ele mesmo gosta de dizer, sua vida é “iniciada no fim do meio”, já que são tantas histórias para contar que geralmente ele não sabe onde começar. Em 1975, em Dracena, gerenciou o extinto Cine Alvorada, de Maringá. Naquela ocasião, ao descobrir que dezenas de cartazes seriam jogados no lixo, começou a dar um destino mais decente ao rico material.

Em 1987, expôs parte da coleção no Rio Design Center, exposição que repercutiu nacionalmente.

Quando morou em Maringá pela primeira vez, foi responsável pelas páginas domingueiras do O Diário. Eram duas páginas sobre cinema. O leitor ainda podia recortar um anúncio que dava direito a uma sessão no Cine Maringá.

Em 1978, criou a “1ª Mostra de Cinema de Maringá. “Foi algo bastante didático, mostrando roteiros, claquetes, projetores antigos, fotografias, além de explanações sobre filmagens, roteiros e exibição de filmes. More queria trazer a maringaense Sonia Braga, mas ela estava envolvida em outros projetos, na ocasião. Quem veio foi a Sandra Bréa, além de outras atrizes (Zilda Maio, Silvia Salgado, Danúbia Machado), atores (Canarinho, Toni Tornado) e diretores (Zé do Caixão, Cláudio Cunha, Alex Vianny, Jean Garret).

Mas a Mostra não teve o apoio merecido do poder público e More, desiludido, pensou em sair da cidade. Um amigo particular lhe deu uma carta para que procurasse, no Rio de Janeiro, um diretor da TV Globo e o cineasta Glauber Rocha. More não conseguiu contatar nenhum dos dois e foi procurar emprego na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM). Na ocasião, conheceu José Carlos Avellar, um dos maiores teóricos e críticos de cinema do país. Avellar, diretor da Cinemateca, ofereceu-lhe, na hora, o cargo de técnico em pesquisa e documentação. More só teve tempo de voltar para Maringá, pegar suas roupas e retomar o Rio para “os dez anos mais felizes de sua vida”.

No MAM teve contato direto com os mais famosos diretores. Bebeu cerveja com Nelson Pereira dos Santos (“um cidadão simples, muito gente boa”), com o imortal Grande Otelo e até morou numa república junto com o falecido cineasta Lael Rodrigues, diretor de “Bete Balanço”, além da diretora Tizuka Yamasaki.

Conhecido pelo seu enorme material cinematográfico, foi convidado a ser colaborador da antológica revista “Cinemin”, a melhor revista de cinema já publicada no Brasil, extinta em 1994. Colaborou também com o Rio Cine Festival, FestRio e outros nos quais o seu trabalho como pesquisador rendeu homenagens e reconhecimento público.

More defendia o valor indiscutível do folheto publicitário na evolução da sétima arte, mostrando que não é apenas um importante divulgador de filmes. “É um documento completo sobre a obra e de valor inestimável para pesquisadores e amantes da sétima arte”.

Vivendo bem de perto com o mundo cinematográfico (em 1983 assistiu 272 filmes), sua fama chegou até ser noticiada pela ONU - Organização das Nações Unidas. Em 1986, reuniu novamente seus folhetos publicitários para uma nova mostra dentro da programação “A Cara do Rio”, quando foram exibidos filmes e folhetos tendo a cidade maravilhosa como tema. No mesmo ano, as agências de notícias já destacavam o trabalho de More: “Una reportaje publicada en el periódico carioca “Jornal do Brasil “, llamo atencion sobre un hecho casi inedito de que un fumcionario de Ia Cinemateca del Museo de Arte Moderno de Rio de Janeiro, detenia en su poder, 15 mil folletos publicitários sobre filmes. Despues deI reportaje, Morimassa Miyazato (More) se hizo famoso y ahora siempre es convidado a hacerexposiciones com temas variados “.

O FIM DO CINEMA DE PAPEL

A crítica especializada batizou as mostras de More como “cinema de papel”. Entre os folhetos, raridades como os filmes de James Dean (Vidas Amargas, Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade), grandes clássicos (Cidadão Kane, E o Vento Levou e Mágico de Oz) e filmes brasileiros como”O Pagador de Promessas, O Ébrio, Macunaíma e El Justiceiro, pôster que nem o diretor, Nelson Pereira dos Santos possuía.

More coleciona folhetos sem nenhum preconceito. Antes dele, os folhetos eram considerados os menos nobres impressos do cinema, com circulação restrita a exibidores e imprensa. Segundo o crítico Rogério Durst, “More ajuda a preservar a maltratada memória gráfica do cinema e, toda vez que pode, divide sua coleção. Sorte nossa”. Para David França Neves, “More é um incansável e seus cartazes dão água na boca do cinéfilo fetichista”.

MORANDO NO JAPÃO

Numa tarde no MAM, um tio telefonou-lhe perguntando se não gostaria de ir para o Japão. More topou na hora. Ele adaptou-se ao cotidiano japonês e desenvolveu um método peculiar de ensino aos demais dekasseguis: os alunos são professores e vice-versa.

De volta a Maringá, foi consultor técnico do Clube Olímpico na época em que a entidade organizou o baile de carnaval com o tema “Cem anos de Fantasia”, uma homenagem aos 100 anos do cinema.

Hoje, ele recorda que o grande “culpado” pela sua paixão pela sétima arte foi a própria família. Sempre aos domingos, More e seus pais subiam num caminhão em Pompéia, cidade do interior paulista, e junto com a colônia japonesa enfrentavam uma terrível estrada sinuosa. Horas depois, todos já estavam num balcão de cinema para assistir fitas sobre samurais. Coisa de cinema.

Desde pequeno, ele tem mania de colecionar flâmulas, lápis, moedas, selos (chegou a ter 12 mil) e gibis (4 mil). Agora, sua nova paixão são cartões telefônicos, mania que começou quando morou no Japão; tinha 2.500, na maioria japoneses. Porém, ele perdeu todo esse acervo misteriosamente. Quando foi para o Japão, deixou o material na Secretaria de Cultura de Maringá e, ao retornar, não mais o encontrou.

Hoje, casado com Aurora (nome de um filme de Mornau), tem três filhos: a moça Breezy, ganhou o título original de “Interlúdio do Amor”, filme que constava do programa de um dos cinemas em que More trabalhou. O menino chama-se Marlon, uma clara homenagem ao astro de “O Poderoso Chefão “. Já a caçula, Sarina, “está mais à vontade para escolher seu nome artístico”, brinca More.

Os responsáveis foram os meus pais, porque toda semana um caminhão passava na redondeza das colônias japonesas, no sítio lá em Pompéia, e levava para um grande galpão numa fazenda onde eram projetados os filmes.”
More

“A memória do cinema” ainda tem muitas outras histórias para contar, fatos pitorescos durante seu convívio com os astros e estrelas que, até então, eram apenas imagens guardadas na retina do cinéfilo. A importância e o reconhecimento de sua coleção de panfletos faz de More uma pessoa incomum. São documentos que graças a More, o vento não levou.

(Marcelo Bulgarelli /Texto publicado pelo O Diário – 12 de outubro de 1997)

Amor pelos filmes e por Maringá

Paraná Centro - Em que ano você chegou a Maringá?

Morimassa - Cheguei em 1970, vindo de São Bernardo (SP), mas sou nascido em 8 de outubro de 1945, em Pompéia (SP). De imediato vim sozinho e depois casei com Aurora Tereza Miazato, na Catedral de Maringá, em 1973, com quem tive três filhos: Breezy, Marlon e Sarina.

Paraná Centro - Quando começou o seu amor pelo cinema e de onde veio essa paixão?

Morimassa - Desde os 6 anos de idade. Os responsáveis foram os meus pais, porque toda semana um caminhão passava na redondeza das colônias japonesas, no sítio lá em Pompéia, e levava para um grande galpão numa fazenda, onde eram projetados os filmes.

Paraná Centro - O que você fazia quando trabalhou no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio de Janeiro?

Morimassa - Fazia de tudo, eu era arquivista, cuidava da mapoteca, do arquivo, do clipping de jornais do Brasil todo, separava e mandava para o respectivo departamento. Fiz esse trabalho por 10 anos.

Paraná Centro – Por que saiu do MAM?

Morimassa - Tive um convite do meu tio para ir trabalhar no Japão, na cidade de Toyohashi, onde fiquei por 10 anos, e, entre as atividades que desenvolvi, destaco a agrimensura, onde media longitude, demarcação de terrenos. Depois voltei para o Brasil e para Maringá.

Paraná Centro - Qual sua visão sobre Maringá, que vai completar 75 anos?

Morimassa - Maringá expandiu demais, tanto que quem vem passear em Maringá, depois de certo tempo, volta, pois é uma cidade bonita, que oferece ótima qualidade de vida para viver.

Paraná Centro - Seu filme preferido é Laurence da Arábia. O que você vê nesse filme que o inspira?

Morimassa - A coragem, retidão, garra e enfrentar injustiças. Já perdi a conta de quantas vezes assisti.

Paraná Centro - Está tudo em DVD?

Morimassa - Tenho um espaço só com DVDs, mas já tenho uma pré-listagem para digitalizá-los. Faço exposições temáticas, então tenho quase 300 DVDs de western, além de terror, religião, biografias. Filmes que fui colecionando ao longo da vida. Alguns exemplos são os filmes Sayonara e a Carta.

Paraná Centro - O que você diria para Maringá no aniversário de 75 anos?

Morimassa - Maringá, parabéns pelos seus 75 anos. Vamos em frente!