“...Maringá foi o primeiro município a levar o ensino para o campo”

Imagem da notícia.

A entrevista com Cláudio Ferdinandi, um dos sócios fundadores da Unicesumar, traz à luz ao início de um tempo importante para o desenvolvimento da educação do município de Maringá. Formado em Direito e com licenciatura em Pedagogia, ele conta sua vinda para Maringá, há quase 52 anos, e como foi a fundação da Unicesumar, uma das universidades que mais cresceram no Paraná, nos últimos anos.

Nascido em Cambé, passou por Arapongas e estudou em Curitiba. Até 1970, ainda jovem, já era professor da rede estadual de educação, no município de Palotina - PR. Casado com Marta Shizuka Tanaka Ferdinandi, desde 1968, Cláudio Ferndinandi é pai de dois filhos: Cláudio e Marta Beatriz. Claudinho é casado com Maria Navarro Ferdinandi e pai de Emanuelly e Anellyse. Marta Beatriz é casada com Marcelo Betarelo Verdade e são pais de Beatriz e Pedro Henrique.

Paraná Centro - Qual a razão de o senhor ter se mudado de Palotina, já que estava muitíssimo bem?

Cláudio Ferdinandi - Naquela época, a cidade queria que eu fosse o candidato único a prefeito. Só havia um partido em Palotina e todos queriam que eu fosse o prefeito, mas minha esposa era totalmente contrária à ideia. Para evitar a candidatura, resolvemos mudar para Maringá. Como eu tinha um padrão estadual, tive que alojá-lo na Escola Vital Brasil, onde fui muito bem recebido.

Paraná Centro - Onde mais o senhor trabalhou em Maringá?

Cláudio Ferdinandi - Na sequência, trabalhei na Secretaria Estadual de Educação, porque lembraram de meu nome para ser Inspetor Regional do Noroeste do Paraná. Naquele período, 1972, foi eleito o prefeito Silvio Barros (pai) e ele me convidou para ser o secretário municipal de Educação de Maringá. Aceitei o cargo quando o que dominava no Paraná eram os cafezais, pois a zona rural era muito habitada. Então, tive a ideia de, ao invés de trazer os alunos das propriedades rurais para estudarem na cidade, dividimos o município em 4 setores e construímos 4 escolas na zona rural de Maringá, para levarmos os professores e o ensino até lá. Então, Maringá foi um dos primeiros municípios a levar o ensino para o campo. Em 1975, tivemos a grande geada negra no Paraná, seguida do êxodo rural, com as pessoas saindo do campo para entrada da soja e das máquinas agrícolas.

Paraná Centro - Como foi sua carreira no ensino, em Maringá?

Cláudio Ferdinandi - Na sequência, me afastei das funções administrativas e fui nomeado professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e ainda lecionava na Faculdade de Jandaia.

Nas idas e vindas, de ônibus, para lecionar em Jandaia, eu e o professor Wilson Matos tivemos a ideia de montar uma faculdade em Maringá”
Cláudio Ferdinandi

Paraná Centro – O senhor teve algum cargo político?

Cláudio Ferdinandi - Fui vereador e secretário da Câmara em Palotina, em 1968. Em Maringá, fui vice-prefeito e assumi por 14 dias. Sou da tese que o vice tem que assumir em virtude de a impossibilidade do prefeito estar no cargo, ou seja, quando faz viagens internacionais e outros compromissos que o impedem de estar na função. Mas deve assumir e não mudar nada, somente em casos como quando assumi, uma das vezes, e tivemos que superar uma crise hídrica.

Paraná Centro - Como foi a ideia de criar o Cesumar?

Cláudio Ferdinandi - Nas idas e vindas, de ônibus, para lecionar em Jandaia, eu e o professor Wilson Matos tivemos a ideia de montar uma faculdade em Maringá, já que havia apenas a UEM – Universidade Estadual de Maringá, no município. Na época, os alunos que concluíam o segundo grau disputavam uma vaga concorridíssima na UEM e, quando não passavam, tinham que ir para outras cidades para ter um ensino superior. Isso para as famílias de Maringá era uma grande dificuldade. No dia 7 de julho de 1986, protocolamos o contrato social do Cesumar.

Paraná Centro - Começou onde o Cesumar?

Cláudio Ferdinandi - Começamos no centro da cidade, em salas alugadas, daí, no primeiro ano, já tivemos a permissão da Prefeitura para adquirir, da Companhia de Terras, o primeiro terreno para iniciarmos a construção do Cesumar.

Paraná Centro – Como era este primeiro terreno?

Cláudio Ferdinandi - Aqui era um lixão e conseguimos adquirir o primeiro terreno, em 1990. Nele (no terreno), instalamos o Colégio Objetivo e, logo em seguida, pleiteamos junto ao Ministério da Educação e Cultura (MEC) os cursos de Administração e Processamento de Dados, quando começamos o Cesumar. Na sequência, conseguimos os cursos de Direito e Contabilidade, sempre primamos pela qualidade do ensino. Como eu e o professor Wilson Matos somos professores e criamos uma instituição de excelência no ensino. Depois disso, vieram outras faculdades, mas crescemos em número de cursos e já chegamos a 243 mil alunos presenciais e no ensino à distância. Hoje, temos quase mil polos e conseguimos, dentre outros, Medicina, cursos de mestrado e doutorado em Direito, somando aos quase 80 cursos de ensino superior e outras graduações. Estamos entre os 4% das melhores faculdades do Brasil. Nossos alunos têm um “banco” de oportunidades. Além disso, criamos uma orquestra sinfônica, com caminhão palco para apresentações culturais com equipamentos e músicos, que se apresenta no Brasil todo.

Paraná Centro - Houve momentos difíceis na criação do Unicemar, que pensaram em desistir?

Cláudio Ferdinandi - No começo tudo é difícil. Naquele tempo, o MEC – Ministério da Educação e Cultura, era um “cartório”, ou seja, para quem estava instalado era mais fácil, mas era muito difícil ingressar com novos cursos e novas faculdades. Os grandes proprietários faziam de tudo para ninguém entrar, criando barreiras para aprovações. Diziam que tinha que provar as necessidades sociais de criar um curso, colocando várias barreiras. Mas houve mudanças no governo Fernando Henrique Cardoso, possibilitando que quem ingressasse com pedidos sólidos de cursos, eles seriam liberados. A educação não pode ir a reboque da sociedade, mas ela tem que ir à frente da sociedade.

Paraná Centro - Como o senhor vê o desenvolvimento de Maringá, que está nos primeiros lugares do ranking das melhores cidades para se viver?

Cláudio Ferdinandi - Primeiro, destacar que houve o trabalho de uma Companhia do Norte do Paraná, chamada Paraná Plantacion, que adquiriu 100 alqueires de terras, indo de 5 alqueires a parques. Maringá teve a visão inglesa de colonização da Companhia de Melhoramentos e o cuidado de fazer um projeto integrado, começando por Londrina, passando por Maringá, indo até Cianorte. A cada 90 quilômetros uma cidade polo. Com grandes parques, fazendo pequenas propriedades para evitar o latifúndio.

Paraná Centro - O senhor esperava que Maringá se desenvolvesse tanto?

Cláudio Ferdinandi – Nem eu e ninguém esperava tal desenvolvimento (de Maringá). Muitos reclamavam das árvores e larguras das ruas e avenidas, porque ninguém esperava isso. Diziam “por que ruas e avenidas tão largas”? Há uma história que poucos sabem, que a Companhia de Melhoramentos, depois da Segunda Guerra Mundial (1945), teve que deixar o nome de Paraná Plantacion; os ingleses tiveram que vender essa área toda de terras para grupos empresariais nacionais, daí vem o jornal Folha de São Paulo, que comprou grande parte disso aqui, com o nome de Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná, porque os ingleses precisavam de dinheiro para custear sua entrada na guerra.

Nem eu e ninguém esperava tal desenvolvimento (de Maringá). Muitos reclamavam das árvores e larguras das ruas e avenidas, porque ninguém esperava isso. Diziam: ‘por que ruas e avenidas tão largas?’
Cláudio Ferdinandi

Paraná Centro - As ruas de Maringá contam a história do Brasil?

Cláudio Ferdinandi -Cláudio Ferdinandi - Por exemplo, a avenida que dá acesso à cidade tem o nome de Colombo, um navegador que descobriu a América; a Avenida Getúlio Vargas, avenida que era o ápice do Brasil; tem Rua Tomé de Souza; Rua Men de Sá, Rua Dom Pedro I, Rua Dom Pedro II, Avenida Paiçadu, Avenida Almirante Tamandaré. Toda Zona 5, homenageia a Princesa Isabel e os homens que ajudaram na libertação dos escravos; depois vem a Avenida Marechal Deodoro.

Paraná Centro - Essa dimensão que alcançou Maringá traz orgulho para a população?

Cláudio Ferdinandi - Pela ordem, a primeira coisa que uma pessoa deve fazer é gostar de si mesmo, depois gostar da família, amar a cidade e amar a pátria. Maringá foi colonizada por maioria de descendentes italianos, sendo que a maior colônia japonesa do Brasil é de Maringá. Então, a colonização de Maringá teve muita participação das pessoas de São Paulo, porque era mais fácil ir a São Paulo do que a Curitiba. Além disso, tivemos a sorte de ter tido excelentes administradores, com raras exceções, que não chegaram a causar traumas na cidade; um ou outro prefeito descuidou um pouco, mas nada que não pudesse ser corrigido. Terra fértil, natureza abundante, boas administrações, vontade de crescer e um caráter de seriedade. Maringá conserva essa pujança jovem. Todo dia eu levanto e coloco um tênis e vou dar voltas no Parque Ingá. Agora com a pista emborrachada do Parque Ingá, ficou ótimo para caminhar. Maringá tem esses atrativos.

Paraná Centro - Qual a mensagem que o senhor dá aos maringaenses nos seus 75 anos?

Cláudio Ferdinandi - Valorize a natureza, acima de tudo, porque se um dia a natureza desaparecer, nós voltamos a ter uma cidade comum, de concreto armado e sem a beleza que encanta com os parques, jardins. Temos que ter uma boa educação superior, como o UniCesumar e outras tantas. Valorize todo conjunto que a cidade oferece, nunca tentando destruir, mas contribuindo para que cada dia isso venha melhorar; não derrube uma árvore, pelo contrário, plante mais duas; não deteriore aquilo que no passado se construiu; ame com orgulho a terra em que nasceu ou mora. Essa mensagem eu deixo para os jovens, para que Maringá possa continuar tendo esse conforto que temos.