A demarcação oficial de Maringá

No dia 10 de novembro de 1942, diversas autoridades e diretores da Companhia de Terras Norte do Paraná fizeram o lançamento da Pedra Fundamental de Maringá. Na oportunidade, foi inaugurado o primeiro hotel da futura cidade: o Hotel Campestre (museu Bacia do Paraná)

No dia 10 de novembro de 1942, diversas autoridades e diretores da Companhia de Terras Norte do Paraná fizeram o lançamento da Pedra Fundamental de Maringá. Na oportunidade, foi inaugurado o primeiro hotel da futura cidade: o Hotel Campestre (museu Bacia do Paraná)

Como teria surgido o Maringá Velho

Maringá era um povoado desprovido de um comércio por perto e pertenceu a Londrina até 1944, quando passou a fazer parte da Comarca de Apucarana e, a partir de 1947, de Mandaguari.

O ano de 1942 é emblemático para a história de Maringá. No dia 10 de novembro, na “Marcha para o Oeste”, a Companhia de Terras do CTNP lança a pedra fundamental da futura cidade. No dia, foi inaugurado o rústico Hotel Campestre (depois denominado Hotel Maringá), de sua propriedade, construído com lascas de palmitos e coberto de tabuinhas, destinado a oferecer um mínimo de condições para receber e hospedar os interessados em investir na região.

Dirigentes da empresa e autoridades partiram de Londrina e Lovat (atual Mandaguari), se reunindo com agricultores que já habitavam o entorno. Eles se utilizaram de automóveis, caminhões e ônibus, estes últimos movidos a gasogênio. Funcionários da CTNP – Companhia de Terras do Norte Paranaense, como o gerente Arthur Thomas, entre outros, participaram da solenidade.

Saúde precária

Numa região em desbravamento, acidentes podiam acorrer a todo instante. Se de um lado a diversidade de pessoas já era grande, assim como os desafios que enfrentavam para prestar serviços na derrubada ou iniciar a vida em um lugar tão inóspito, de outro lado não havia tantos médicos e recursos para socorrê-los. Aos braçais, que se lançavam contra a mata, o custo era mais alto. Não raro, feriam-se com as próprias ferramentas, eram surpreendidos por animais peçonhentos ou, golpeando árvores, acabavam atingidos por paus soltos que, com a vibração das pancadas, se desprendiam das copas. Alguns eram alcançados por delgados palmiteiros que, ao cair, ricocheteavam; outros prostravam-se febris, acometidos de doenças disseminadas por insetos, sem contar os que padeciam de alergias e lesões diversas pelo contato com a floresta. Como se vivia em ambiente hostil, havia a infestação de vermes, solitárias e lombrigas, cujos hospedeiros eram porcos, aves, entre outros animais. As pessoas sofriam com dordolhos e o ataque de borrachudos, que lhes sugavam o sangue durante o dia. À noite, chegava a vez dos pernilongos, mosquitos “pólvora” e outros insetos. Para dormir, era preciso usar telas de mosquiteiros ou afugentá-los com fumaça, queimando pó de serra e estrume bovino em latas ou em montes sobre o chão de terra batida.

O primeiro médico de Maringá

O primeiro médico a chegar a Maringá, no início da década de 1940, foi o baiano Lafayette da Costa Toucinho, formado em 1923 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Soubera das oportunidades que existiam no norte do Paraná, onde o número de profissionais era ainda reduzido, e chegou a trabalhar por algum tempo em Cambé (então Nova Dantzig). Em seu consultório, no Hospital Santa Cruz, que foi fundado em 1944 e construído de madeira na Rua Jumbo (que atualmente tem o nome do médico), atendia diariamente filas enormes de gente subnutrida, mal dormida e exaurida pelo trabalho pesado nas derrubadas e nas roças em formação.

Além de seu hospital ser considerado o primeiro da cidade, Lafayette foi, em 1949, o primeiro presidente da Sociedade Médica de Maringá e um dos seus fundadores, ao lado de José Gerardo Braga, Galilleu Pasquinelli Filho. Waldemar Prandi, José Mário Hauare e lvaldo Borges Horta.

Hospital São Paulo

De propriedade do médico Augusto Pinto Pereira, foi construído entre os anos de 1947 e 1948 e funcionou na Rua Cleópatra (atual Rua José Jorge Abrão), também no Maringá Velho.

A precariedade não intimidou que outros profissionais da área da saúde viessem para a jovem cidade. O médico José Gerardo Braga foi outro exemplo. Em 12 de abril de 1948, inaugurou a Casa de Saúde e Maternidade Maringá, toda em madeira, na Avenida Abolição (atual Avenida Cidade de Leiria). Ao lado da esposa, Braga realizou um atendimento digno e sem distinção de classes a todos os moradores de Maringá.

Embora muitos estivessem em busca de fazer riqueza, boa parte dos médicos buscava atender a todos indistintamente. Mesmo com as oportunidades, evidentemente, muitos dos operários pegavam-se frustrados em seus sonhos de “Eldorado”. A pobreza nos primeiros anos de Maringá era alarmante e o exercício da caridade - a ajuda aos doentes sem recursos para pagar sequer uma consulta - foi muito praticado por profissionais da medicina.

O primeiro dentista de Maringá

Com formação acadêmica, o primeiro dentista a chegar foi Henrique Pinto Pereira, em 1946. Ele, a exemplo do médico precursor, tinha o desejo de fazer um “pé de meia”. Mas, sua clientela era reduzida, pois sem os cuidados necessários, grande parte da população já era “banguela”. Pereira ocupava seu dia fazendo extrações para livrar as pessoas de terríveis dores de dente, além de obturações e providenciando dentaduras feitas sob medida, um luxo para poucos. Naquela época, vendedores, com suas maletas esgarçadas, batiam de porta em porta oferecendo dentaduras para as pessoas mais simples. Era uma chance de voltar a mastigar. As “pererecas”, de todos os tamanhos e para qualquer idade, podiam ser pagas em módicas prestações.

De coração generoso, falante e brincalhão, Pereira não se importava em “pendurar” os honorários de suas consultas e tratamentos.

Também, no ano de 1946, instalou seu consultório o dentista prático Primo Monteschio, que havia chegado dois anos antes.

Fonte: A cidade contada pelos que viveram sua história (UniCesumar - Volume I).

Maringá Velho: Avenida Brasil esquina com a Rua Jumbo (atual Lafayette da Costa Tourinho), década de 1940; placas indicativas do Hospital Santa Cruz e de um dentista, e abaixo delas, malas de viagem (acervo Família Taguchi / Acervo Maringá Histórica)

Maringá Velho: Avenida Brasil esquina com a Rua Jumbo (atual Lafayette da Costa Tourinho), década de 1940; placas indicativas do Hospital Santa Cruz e de um dentista, e abaixo delas, malas de viagem (acervo Família Taguchi / Acervo Maringá Histórica)