Uma história ligada ao município de Jardim Alegre

Uma das famílias mais tradicionais do município de Jardim Alegre e conhecida em todo o Paraná, sem dúvida é a família Pessuti. Graças à carreira política do ex-governador e ex-deputado estadual Orlando Pessuti, o sobrenome dos pioneiros de Jardim Alegre foi levado aos quatro cantos do Estado. Para falar um pouco sobre o legado e a história da família no município, o jornal Paraná Centro convidou a ex-prefeita Neuza Pessuti para conceder uma entrevista para a edição especial de aniversário.

Neuza Pessuti Francisconi é nascida no dia 13 de julho de 1951, na cidade de Marialva (PR). Filha de Natal Pessuti e Idalina, ela foi casada com Antônio Carlos Francisconi (in memoriam), com quem teve cinco filhos Emerson, Elber, Estela, Lígia e Regina e 8 netos: Guilherme, Caio, Leonardo, Bruna, Júnior, Bárbara, Livia e Davi. A família veio para Jardim Alegre em janeiro de 1958 e se estabeleceu em um sítio, onde atualmente é o Pesque Pague Olaria.

Pioneira foi a primeira prefeita de Jardim Alegre

Pioneira foi a primeira prefeita de Jardim Alegre

Paraná Centro – Quantas pessoas da família Pessuti vieram para Jardim Alegre?

Neuza Pessuti – Meu pai Natal Pessuti, minha mãe Idalina, a Onélia, eu, o Orlando e o Nelson.

Paraná Centro – Antes de vir para Jardim Alegre, qual era a atividade do seu pai em Califórnia?

Neuza Pessuti – As primeiras lembranças que tenho é que morávamos em um sítio, mas meu pai vendeu e comprou um caminhão. Ele também tinha um armazém de compra de cereais, que levava para Paranaguá. Ele se entusiasmou com Jardim Alegre e com essa região, que ainda estava sendo desbravada e veio para cá com a família.

Paraná Centro – E como foi para vocês essa mudança?

Neuza Pessuti – Quando viemos para Jardim Alegre, eu ainda não estava na escola, eu tinha uns 6 anos, e comecei a estudar aqui.

Paraná Centro – E o que a senhora lembra que havia aqui em Jardim Alegre, quando chegaram?

Neuza Pessuti – Nós fomos vizinhos do senhor Genibre Aires Machado, fundador de Jardim Alegre, e da família do senhor Jerônimo. Nós ficamos pouco tempo nesse primeiro sítio, onde hoje é o Pesque Pague Olaria. Pouco tempo depois, meu pai comprou outro sítio, próximo da entrada da cidade, que hoje já é área urbana de Jardim Alegre. Depois de um tempo é que compramos o outro sítio, na saída para Ivaiporã, às margens da rodovia PR-466, e que pertence atualmente ao Orlando Pessuti. Pelo que me lembro, o primeiro sítio que moramos não era uma propriedade grande, acredito que não tinha mais do que cinco ou sete alqueires. E esse que pertence ao Orlando, deve ter uns 12 alqueires.

Paraná Centro – Que lavoura que seu pai veio cultivar aqui?

Neuza Pessuti – Ele veio para plantar café, mas também milho e trigo, que era a agricultura da época. Mas aqui em Jardim Alegre, havia outras atividades da agropecuária e muito safristas (produtores de porcos), mas meu pai não chegou a mexer com isso, ele sempre foi da agricultura.

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Neusa Pessuti e família

Neusa Pessuti e família

Paraná Centro – Quais as primeiras lembranças que a senhora tem de Jardim Alegre?

Neuza Pessuti – Logo que nós chegamos em Jardim Alegre, um dos primeiros passeios que fizemos foi participar de uma missa em uma capela, onde hoje fica a igreja matriz. Mas era uma capela bem pequena e acho que era a primeira missa que estava ocorrendo lá. Não havia nem bancos para as pessoas sentarem, tivemos que sentar no chão mesmo, que estava forrado de tábuas, onde ficamos com as pernas cruzadas. E nós estranhamos, porque vínhamos de Califórnia e a igreja lá já era bem consolidada, e participávamos do catecismo.

Paraná Centro - Como foi a mudança para próximo da cidade e como seu pai se tornou uma liderança importante de Jardim Alegre?

Neuza Pessuti - Meu pai sempre foi um líder nato, tinha uma liderança incrível, muita facilidade para se comunicar e interagir com as pessoas e era muito procurado pelas pessoas. E ele estava sempre pronto para ajudar, seja para fazer injeção ou ajudar a medicar algum animal. A minha mãe também era uma pessoa muito carismática e eles sempre estavam envolvidos com a igreja, mas também com a parte política do município. Natal Pessuti sempre trabalhou para valorizar o município, para que ele se tornasse independente e eu sempre o via junto com as lideranças da cidade.

Paraná Centro - A senhora tem lembranças das reuniões políticas?

Neuza Pessuti - Lembro que a casa do meu pai sempre foi muito frequentada por pessoas que iam lá para discutir essas questões que envolviam a criação do município e ele sempre viajava para ver sobre isso. Na época, nós ainda éramos crianças e não entendíamos direito o que estava acontecendo. Mas antes da emancipação do município, eu me lembro que foram muitas conversas que ocorreram na nossa casa. E as lideranças daquela época eram muito fervorosas, buscavam essas conquistas a todo o custo e, hoje, percebemos que as pessoas usam mais da diplomacia para conseguir essas coisas.

Paraná Centro - Onde a senhora começou a estudar em Jardim Alegre?

Neuza Pessuti – Comecei a estudar no Colégio Cristóvão Colombo, que oferecia o ensino primário. A minha primeira professora foi a senhora Izabel Severino, inclusive, éramos vizinhas de sítio e eu ia e voltava da escola com ela. Depois estudei com seu Manoel, que era de Ivaiporã, e ia a pé dar aula em Jardim Alegre; ele sempre passava na casa do meu pai, me deixava e seguia para Ivaiporã. Também tive aula com a senhora Clarinha Ortiz, entre outras professoras que marcaram minha história. Quando terminei o primário, tinha doze anos e queria continuar estudando em Ivaiporã, com o início do Colégio Mater, conhecido como o colégio das irmãs, mas era difícil e meu pai não consentiu que eu e a Onélia fôssemos estudar lá. Só consegui terminar os estudos depois que estava casada. Minha mãe estava doente e eu acabei ficando para cuidar dela. Depois que ela faleceu e eu estava casada é que voltei a estudar. Terminei o segundo grau no Colégio Canadá, fiz a faculdade de Administração e pós-graduação em Gestão Empresarial e Financeira na área da saúde.

Paraná Centro – Como foi a ida do Orlando Pessuti para estudar em Curitiba?

Neuza Pessuti – Com 17 anos, ele foi para Curitiba para estudar e nós sentimos a ida dele, porque éramos bem apegados; na sequência, o Nelson também foi estudar fora. Eu, a Onélia e a Marta também queríamos estudar, mas para a gente era mais complicado, meu pai era muito rígido.

Paraná Centro – Como a senhora conheceu seu esposo?

Neuza Pessuti – O Carlinhos era jogador de futebol aqui em Jardim Alegre e era famoso naquela época; eu o conheci vendo jogar. Namoramos quatro anos e depois nos casamos. Ele era muito companheiro e ele nunca me impediu de nada. Como ele era caminhoneiro, parava pouco em casa, mas tínhamos uma vida familiar normal. Acredito que, como fomos criadas no ritmo do meu pai, com ele lutando pelo desenvolvimento de Jardim Alegre e participando das campanhas políticas, essa movimentação em casa era normal, e Carlinhos também se adaptou a isso e achava normal que eu participasse da política, assim como meu pai.

Paraná Centro - Para quais cargos o seu Natal Pessuti concorreu ou foi eleito?

Neuza Pessuti – Meu pai foi suplente de vereador, foi vereador e concorreu a prefeito por quatro vezes. Em três eleições, ele foi o mais votado, mas, na época, existia a questão da legenda e, na soma da legenda, ele acabava perdendo; ele também foi vice-prefeito do Abdo, quando encerrou a carreira política.

Paraná Centro – E como era o envolvimento da família nas campanhas?

Neuza Pessuti – Desde as primeiras campanhas, a nossa casa era sempre muito movimentada e, próximo das eleições, sempre recebíamos visita de muita gente importante. O Belinati e a Emília de Londrina, quando vinham fazer campanha na região, dormiam na casa do meu pai. O Álvaro Dias sempre estava em casa e, mesmo quem não era do lado do meu pai, acabava passando para falar com ele, por causa da liderança partidária que ele tinha. Ele faleceu em 1996.

Paraná Centro – Quando o Pessuti foi eleito deputado estadual pela primeira vez, qual foi o sentimento e a reação do seu Natal Pessuti?

Neuza Pessuti – Para meu pai foi uma alegria muito grande, ele falava nisso 24 horas por dia. Conversava com os compadres e se mostrava muito feliz e dizia que o filho dele seria governador do Paraná.

Paraná Centro – O sonho do seu Natal de ser prefeito de Jardim Alegre acabou sendo realizado, de forma indireta, por meio da senhora. Como se sentiu ao ser eleita?

Neuza Pessuti – Senti como tendo uma missão cumprida, mas muito orgulhosa também, pois foi algo que nasceu dele, incorporamos isso, lutamos e chegamos e foi algo muito bom. Acredito que eu consegui cumprir a minha missão nos quatro anos que estive na prefeitura e me sinto orgulhosa pela participação na administração do município. Quantas vezes eu lutei para chegar lá. Minha filha Lígia foi vice-prefeita e seguimos a história política do meu pai e consegui realizar o sonho de ter sido prefeita e o Pessuti de ter sido deputado, vice-governador e governador. Tudo isso em prol de uma Jardim Alegre melhor, para atender a população; e o nosso trabalho sempre foi voltado a isso, atender a comunidade e as pessoas que nos procuravam e isso nos fez sentir realizados.

Natal Pessuti e família

Natal Pessuti e família

Paraná Centro – Mas a senhora também tem uma longa história ligada à Regional de Saúde?

Neuza Pessuti – Eu trabalhei 31 anos na Regional de Saúde de Ivaiporã. Comecei aqui em Jardim Alegre, em 1984, no posto de saúde e, naquela época, eram jurisdicionados à Regional de Saúde de Apucarana. Com a entrada do Orlando Pessuti como deputado, abriu uma vaga para na Regional de Saúde e fui para lá, onde fiquei até a aposentadoria. Nesse órgão, exerci vários cargos, fui a primeira diretora regional do Centro de Especialidades e lutamos muito para conseguir melhorias e também fui a primeira mulher a atuar como chefe da Regional de Saúde e a primeira prefeita de Jardim Alegre. A nossa regional de saúde sempre foi muito pequena e sempre trabalhamos com pessoal reduzido, em comparação com as outras regionais do Estado, mas conseguimos desenvolver um bom trabalho, que era elogiado pela Secretaria de Saúde. Muitas vezes, nas campanhas de vacinação e em programas que eram implantados, a nossa regional era parabenizada, pois apesar da equipe reduzida, as pessoas trabalhavam de mangas arregaçadas e foi uma experiência muito boa trabalhar com esses 16 municípios.

Neuza Pessuti – A gente sabe que nem tudo satisfaz, mas acredito que as boas ações ficam; aquilo que a gente tratou com carinho, com amor e dedicação, e tudo que buscamos para Jardim Alegre será lembrado. Temos um grande sentimento de gratidão com a população que sempre foi nossa companheira. Sempre fomos bem aceitos em todos os lugares e acredito nessa boa semente. Estamos em uma democracia e o mais importante é que o município continue se desenvolvendo e seja uma boa cidade para meus netos e bisnetos e consigamos levar essa história de Jardim Alegre para frente.