Construí a minha “América” em Jardim Alegre

O agricultor Wilson Jean Domingo é nascido na cidade de Cornélio Procópio, em 26 de setembro de 1942. Ele veio para Jardim Alegre em 14 de julho de 1959, junto com os pais Olídio Jandomenico e Júlia Tereza Mastelari. Casado com Olinda Poltronielli, ele é pai de três filhas: Anete, Júlia e Sara, tem 6 netos e uma bisneta. Em entrevista ao jornal Paraná Centro, ele contou um pouco de sua chegada e de sua história em Jardim Alegre.

Wilson Domingo – pioneiro do município de Jardim Alegre

Wilson Domingo – pioneiro do município de Jardim Alegre

Wilson Domingo – Minha família trabalhava com roça, cultivava café, na propriedade do meu pai.

Paraná Centro – Qual foi o motivo da mudança para Jardim Alegre?

Wilson Domingo – A família era grande e meu pai tentou melhorar e procurou um lugar melhor.

Paraná Centro – E como ele ficou sabendo dessa região?

Wilson Domingo – Havia um corretor de imóveis, chamado Ernesto, genro do Merico (proprietário do prédio onde atualmente é o Banco do Brasil em Ivaiporã), que trouxe muitas famílias de Cornélio Procópio para a região. Várias pessoas que se estabeleceram em Jacutinga (município de Ivaiporã), vieram de lá por causa do Ernesto.

Paraná Centro – Por que ele escolheu Jardim Alegre e não foi para Jacutinga com os demais?

Wilson Domingo – Primeiro meu pai comprou um sítio de 33 alqueires no Pouso Alegre, mas era apenas mato, que precisava ser derrubado e teria que comprar outra área de 7 alqueires para ter acesso à água. O Ernesto então mostrou para o meu pai um sítio perto da Barra Preta, que já tinha cerca de 6 mil pés de café formado e pronto para a primeira colheita. Lembro-me como se fosse hoje, nós chegando no caminhão e eu vendo aquele cafezal, que era a coisa mais linda; pulei do caminhão para ver o café de perto. Além disso, no sítio ainda tinha uma casa para morar. Meu pai acabou perdendo o dinheiro do sinal do sítio anterior, mas foi compensado pela estrutura que tinha na outra propriedade.

Wilson Domingo e familiares

Wilson Domingo e familiares

Paraná Centro – Como foi a viagem de Cornélio Procópio para Jardim Alegre?

Wilson Domingo – Viemos de caminhão, pendurados na carroceria; mas como eu era novinho, aquilo para mim era diversão. Quando apontamos na cabeceira do sítio e meu pai falou que era ali, pulei de alegria do caminhão, porque era um café muito bonito. Lembro que, nesse mesmo dia, recebemos a visita dos irmãos Barbosa, que eram os proprietários da Companhia Ubá. Seu Leovegildo Barbosa disse para o meu pai que aquele café renderia 600 sacas. Meu pai duvidou e quis fazer uma aposta com eles, mas seu Leovigildo disse que não iria querer tomar o nosso dinheiro, mas afirmou que, se o cafezal não desse 600 sacas, a gente não precisaria pagar o restante do sítio. Meu pai ficou muito animado, pois se a produção fosse aquela, ele iria pagar o restante da propriedade. Quando colhemos, ele rendeu 612 sacas e nossa primeira opção foi vender para uma máquina de beneficiamento de café que existia, onde hoje é a Madeporta, em Ivaiporã. Fui com o meu irmão em uma carroça, acompanhando o caminhão e levamos algumas sacas para tirar amostra e ver que renda daria. Mas não gostamos da forma como a pessoa tirava a amostra e como ela avaliou o nosso café e resolvemos vender nossa produção na cidade de Apucarana. Com o dinheiro da colheita do café, meu pai pagou o sítio e ainda sobrou uns 2 milhões do dinheiro daquela época para cada filho que trabalhou com ele na roça.

Paraná Centro – E o que o senhor fez com a sua parte do dinheiro?

Wilson Domingo – Eu fui na Casa Cairo, em Ivaiporã, e comprei um terno. Mas nesse dia choveu muito e começou a molhar o terno, quando eu estava voltando para Jardim Alegre, tanto que começou a sair a cor azul da roupa. Eu fui com um irmão e pedimos carona para um vizinho, que tinha um caminhão, para voltar para Jardim Alegre. Mas ele negou carona para a gente. Chegando mais perto do sítio desse vizinho, encontramos o caminhão dele encalhado e eu lembro que ele pediu para que ajudássemos a desatolar o veículo, mas como ele tinha negado carona, nós também negamos ajuda.

Paraná Centro – Quais comércios haviam na cidade de Jardim Alegre, quando vocês chegaram?

Wilson Domingo – Lembro de alguns comércios como a venda do Leonardo Schimitd, um armazém, a Sapataria Bom Jesus, uma farmácia pequena, açougue e algumas casas. A nossa família fazia compras na Casa da Amizade, onde hoje é a Farmácia Onnix.

Paraná Centro – Por quanto tempo a família do senhor ficou nesse sítio?

Wilson Domingo – Quando eu estava no Exército, meu pai vendeu o sítio, mas havia um imbróglio judicial, pois essa terra tinha uns herdeiros e a metade era da minha mãe, que tinha falecido pouco tempo antes da gente vir para Jardim Alegre.

Paraná Centro – E como foi sua passagem pelo Exército?

Wilson Domingo – Eu fiquei 11 meses e 20 dias, mas se eu não tivesse ido para o Exército e tivesse ficado em Jardim Alegre, meu pai não teria vendido a parte dele no sítio. No Exército, cheguei à função de cabo, mas eu não quis continuar a carreira militar e voltei para Jardim Alegre. Só que voltei para trabalhar para os outros e comecei capinando café, mas eu gostei de “mandar”; eu era patrão e eu nunca quis trabalhar como empregado.

Paraná Centro – Qual foi a atividade que o senhor desenvolveu na sequência?

Wilson Domingo – Eu comecei a comprar café em 1968 e fui para São Paulo para negociar o café por lá. Na época, as empresas daqui pagavam $ 28 milhões na saca de café e eu conseguia pagar $ 40 milhões. Um dia, um homem de Lidianópolis me fez uma proposta para eu trabalhar com ele. Ele me ensinou a tirar amostra, pesar e negociar o café. Estava indo muito bem, cheguei a carregar até dois caminhões de café por dia, até que, em determinada ocasião, ele chegou e disse que queria fazer um acerto comigo. Eu não aceitei e disse que era melhor a gente esperar terminar a colheita do café. Alguns dias depois, ele foi comigo em um mercado, fizemos uma compra grande de mantimentos para mim; na época, a gente comprava tudo em sacos grandes. E, na semana seguinte, ele colocou fogo na máquina de café que ele tinha e sumiu. Até hoje não tenho notícia do paradeiro dele.

Propaganda política da época

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Paraná Centro – E que o senhor fez depois disso?

Wilson Domingo – Só não passei fome com as minhas filhas porque estava com a tulha cheia, mas resolvi ir embora para São Paulo. Fui com meu irmão, hoje é falecido, e comprei uma casa no bairro de Rugde Ramos, que fica em São Bernardo do Campo, e eu voltei para buscar minha família. Na época, eu morava no sítio do meu cunhado e, quando cheguei de viagem, um tio e um primo vieram me ver e falaram: “homem que picava cartão, não tinha nada na vida”. Essas palavras mexeram comigo e ele sugeriu que eu deixasse a casa em São Paulo e voltasse para o sítio para plantar algodão. Ele tinha comprado duas picapes ano 67, uma rural, um trator e 20 alqueires de terra e, então, resolvi seguir o conselho dele e comecei a plantar algodão, mas perdi o dinheiro que tinha dado de entrada na casa em São Paulo. No entanto, no primeiro plantio deu ácaro no algodão, fomos atrás de ajuda, mas me receitaram um produto muito ruim e tomei prejuízo e, dessa vez, fiquei sem nada, zerei mesmo. Vendi as vacas, uns porcos e uma charrete que tinha e resolvi ir embora para São Paulo. Estava com tudo arrumado para ir e fui despedir do meu pai. Foi quando ele começou a chorar e falou: “Como você vai me deixar sozinho aqui”? Eu disse para ele que ali não tinha mais condições de sobreviver.

Paraná Centro – Seu pai não queria que você fosse embora?

Wilson Domingo – Sim, ele não queria trabalhar mais sozinho, eu disse a ele que vendesse o sítio para mim e que eu iria financiar uma debulhadeira para prestar serviço para os outros. Ele disse que eu poderia fazer o que quisesse com o sítio, mas que eu ficasse e não fosse para São Paulo. No outro dia, fomos em Ivaiporã e financiei uma debulhadeira e, no mesmo dia, comprei um caminhão que era do Carlinhos Francisconi, cunhado do Pessuti. Só que o banco não aprovou o financiamento da máquina que eu queria, apenas de uma menor, que não serviria para o que estava querendo fazer. Tive que conversar muito com o gerente da loja onde comprei a debulhadora, para ele deixasse eu levar a outra máquina e pagar a diferença depois. Mas a primeira vez que fui usar a debulhadora, estraguei a produção de feijão do cliente. Fui até Ivaiporã novamente e pedi ajuda para o Genésio, que tinha uma loja de motores e motosserras, e ele que me deu as dicas e me ensinou a usar a máquina de forma correta; a partir dali comecei a trabalhar todos os dias para bater milho e feijão. Chegava a debulhar 150 sacas de milho por dia. E eu corria toda a região e, logo nas primeiras safras, consegui me recuperar financeiramente. Eu comprei a debulhadora em 1971 e em 1975 consegui comprar uma casa. Até que um dia eu fui fazer o serviço em um sítio e o dono quando me viu começando a trabalhar pediu para parar e falou que só aceitaria se fosse debulhadora de trator e não mais debulhadora em cima de caminhão. No outro dia, fui em Ivaiporã e comprei duas máquinas; depois de quinze dias comprei mais dois tratores com a debulhadora incluída e, pouco tempo depois, comprei mais dois. A partir daí contratei sete empregados, todos registrados e o negócio começou a andar. Depois comecei a arrendar uns pedaços de terra para plantar. Primeiro arrendei dez alqueires, em três sítios diferentes, para plantar algodão. Depois de um tempo consegui arrendar mais alguns pedaços de terra e cheguei a 40 alqueires arrendados e comecei a plantar roça. Teve época que cheguei a ter 100 boias-frias contratados para trabalhar na roça.

Paraná Centro – O senhor também trabalhou para o Osmar Dias?

Wilson Domingo – O Osmar Dias era presidente da Café do Paraná e um pessoal de Ibiporã me conhecia pela venda de algodão, veio atrás para que eu pegasse a representação da Café do Paraná na região. Arrumei um sócio que cuidava da parte burocrática e eu continuava com o produto e cuidando da roça.

Paraná Centro – O senhor também trabalhou com representante de uma empresa de venda de trator ?

Wilson Domingo – A Transparaná me fez uma proposta para que eu vendesse trator na região e trabalhei nisso durante cinco anos. Eu representava a marca Massey Ferguson nos municípios de Lunardelli, Lidianópolis e Jardim Alegre e eu conseguia vender muito bem, quase toda a semana eu comercializava um trator, mas eu furava a minha região, vendia em Pitanga, no Mato Grosso. Tinha um gerente do Banco do Brasil, que era meu amigo, e me dava as dicas quando tinha concorrente na praça; eu descobria que algum produtor estava comprando trator da concorrência e ia em cima, algumas pessoas que trabalhavam em outras empresas ficaram bravas e até queriam bater em mim, mas como eu tinha muito boia-fria, eu acabava protegido.

Sara, Nazih, Nathalia e Julia

Sara, Nazih, Nathalia e Julia

Paraná Centro – O senhor também saiu candidato a vereador?

Wilson Domingo – Me arrependo até hoje de ter sido vereador. Na época, eu fiz muitos votos, na primeira eleição foram 466 votos, em 1988; e na segunda eleição, em 1992, tirei 357 votos.

Paraná Centro – E por que o senhor se arrepende?

Wilson Domingo – Pois tudo o que eu ganhava, eu dava para os meus boias-frias, não sobrava nada. A minha mulher, coitada, recebia ligação da farmácia, do fornecedor de gás e eu não vencia pagar. Na porta da minha casa era uma festa, gente batendo palmas o dia todo. Minhas filhas pegavam a minha caminhonete e levavam gente para todos lugares na área rural de Jardim Alegre e de outras cidades vizinhas.

Paraná Centro – Hoje o senhor está desenvolvendo alguma atividade ainda na agricultura?

Wilson Domingo – Hoje as minhas terras estão arrendadas.

Paraná Centro – Mas o senhor arrendou terras pela primeira vez em 1976. Já era comum o arrendamento de terras naquela época?

Wilson Domingo – Lá em Cornélio Procópio era comum, mas aqui não era algo tão comum. As primeiras propriedades, inclusive, me propus a tirar o café para plantar algodão e depois de três anos outras pessoas começaram a fazer a mesma coisa e a pagar mais pelo arrendamento das terras. E isso começou a ficar mais complicado para mim, mas consegui comprar um pouco de terra e dar uma vida boa para minha família e, se for comparar com o que eu era, minha vida ficou muito boa.

Paraná Centro – Qual a importância que Jardim Alegre tem na vida do senhor?

Wilson Domingo – Jardim Alegre tem muita importância na minha vida e não a troco por nenhum outro lugar do mundo; eu criei minhas filhas aqui, fiz a minha “América”. Consegui uma boa área de terra, tenho cinco propriedades aqui em Jardim Alegre.