Autismo, está na hora de romper com a inclusão e participar do processo

Entrevista com o professor Hélio Cruz Leão, conhecido como Prof. Caloi

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Paraná Centro - Qual a sua relação com o Espectro do Autismo?

Professor Caloi - Sempre fui fascinado pelas necessidades especiais, sou especialista PDE e Lato Senso em Educação Especial, Lato Senso em Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) e Lato Senso em Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de bibliófilo e cinéfilo nas AH/SD e TEA, tenho muita experiência no atendimento presencial e online com pessoas na condição AH/SD e TEA ou a Dupla Excepcionalidade e, atualmente, trabalho no Colégio Estadual Barbosa Ferraz com a estimulação cognitiva e o desenvolvimento da plasticidade cerebral, na disciplina de Educação Física.

Paraná Centro - Você poderia explicar o Transtorno do Autismo?

Professor Caloi - Cada um de nós é diferente dos outros, tem a sua forma única de aprender e as suas próprias necessidades. Pois bem, diferentes pessoas têm diferentes necessidades. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) engloba diferentes condições caracterizadas por algum grau de comprometimento, marcado por perturbações do desenvolvimento neurológico e, desde o nascimento, nosso cérebro já inicia o processo de formação de circuitos neurais; esses circuitos são formados de ligações de neurônios, em uma composição a uma teia e são chamadas de sinapses. Acontece que, nesta fase inicial do desenvolvimento, uma criança apresenta pelo menos o dobro de sinapses que um adulto. Isso porque à medida que o indivíduo vai crescendo, recebe estimulações em algumas conexões enquanto outras áreas não são estimuladas. Esse processo é o que chamamos de poda neural ou apoptose. Ele acontece inúmeras vezes ao longo da vida, porém, as podas mais intensas acontecem na primeira infância, nas idades médias de 3, 5 e 7 anos. A poda neural é um processo natural no cérebro de uma criança e não costuma causar grandes prejuízos. Uma falha no processo de poda neural pode ser responsável pelo surgimento de distúrbios como o próprio autismo, que pode ser mais significativo pelo excesso de sinapses. Isso porque os pequenos com essa condição têm mais dificuldades para manter tudo o que aprenderam. Podemos considerar algumas características fundamentais, que podem manifestar-se em conjunto ou isoladamente, são elas: dificuldade de comunicação e de socialização, apresenta padrão de comportamento restritivo e repetitivo; falta de interação; inquietação e pouca vontade de falar; pouco contato visual; surdez aparente, pois a criança não responde aos chamados; ansiedade; agressividade; resistência a mudanças na rotina; movimentos repetitivos do tronco, mãos e cabeças; e dificuldades no uso da imaginação para lidar com jogos simbólicos.

Paraná Centro - Como podemos entender as pessoas na condição de TEA?

Professor Caloi - É um conceito complicado de definir e delimitar, pois cada pessoa apresenta suas próprias singularidades, que aparecem com múltiplas características e manifestações díspares, assim como cada pessoa é única, não há duas pessoas na mesma condição de exatamente iguais! Nessa perspectiva, entendemos que a estimulação precoce, o enriquecimento curricular e a suplementação acadêmica devem ser ofertadas o mais cedo possível com atividades pôr áreas de interesses e concluímos que a elaboração das aulas tem que atender a uma proposta diferenciada e diversificada, evitando a padronização de metodologias.

Nosso propósito junto com a equipe pedagógica e com apoio incondicional da direção do Colégio Estadual Barbosa Ferraz é identificar e preparar atividades com capacidade de sintetização para ajudar as pessoas nessa condição, a fim de encontrar a felicidade do ser, pensar e sentir-se diferente, retendo informações e encontros com as conexões e sinapse, dano sentidos aos signos e significados no ensino-aprendizagem com ações concretas do dia a dia.

Paraná Centro - Como trabalhar com os alunos de TEA?

Professor Caloi - Durante as aulas, os estudantes podem desfrutar de muitas atividades elaboradas e estudadas especificamente para atender as suas necessidades neurais, com novos desafios que envolvem o ensino-aprendizagem voltado às áreas de interesses, pois essas pessoas aprendem e processam as informações com ritmos próprios. São mentes excepcionais, capazes de desenvolver atividades neuronais tão intensas que são confundidas como duas pessoas: uma criança sensível e um adulto que podem falar de qualquer coisa ou simplesmente dependendo de alguns profissionais, são diagnosticadas com “TDAH” ou Hiperativos e com o passar do tempo podem estar condenadas ao fracasso escolar.

Paraná Centro - Seria necessário provocar um debate sobre a temática?

Professor Caloi - Fazendo uma primeira análise, sugerimos que é necessária uma disposição de debate com o mesmo empenho político gerado nos últimos tempos. Esse debate poderá ser considerado uma nova tendência para qualificar a visibilidade com suas diferentes estruturas cognitivas e as concepções das inteligências múltiplas. O debate é necessário e precisamos pesquisar o atendimento básico com atividades especificas para as pessoas na condição do TEA. Entendemos que são muitas maneiras de aprender e ensinar, consideramos que é um labirinto com muitas explicações para ajudar na inclusão acadêmicas e na socialização. Precisamos aproximar deles de forma espontânea, pois a inclusão não é apenas frequentar a escola, é muito mais do que isso.

Paraná Centro - Quais as dicas necessárias para entender um pouco mais sobre o TEA?

Professor Caloi - Conhecer alguns métodos tais como: ABA (Análise do Comportamento Aplicada), TEACCH (Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficits de Comunicação) e PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Imagem). A heterogeneidade inclui diferentes características pessoais em relação a habilidades, interesses e níveis de motivação, personalidade, autoconceito, ritmos e estilos de aprendizagem e, principalmente, necessidades no contexto educacional. É possível observar que a inteligência é composta de muitos fatores e habilidades; assim, as pessoas podem ter um bom desempenho em uma área e um baixo rendimento em outra. Então precisamos interagir com as pessoas na condição do TEA, simplesmente começando a pesquisar informações básicas relacionadas às principais características e sempre tentar conversar sem a necessidade de ter respostas imediatas, pois as pessoas nessa condição não têm a necessidade de se relacionar com outras pessoas, elas têm que ser provocadas, somos nós que temos que interagir e provocar as conversas. Às vezes, algumas pessoas têm dificuldade em fazer contato visual, que depende muito da confiança conquistada entre as pessoas. Eles frequentemente se retiram em si mesmos pelas áreas de interesses mais comuns ou especificas.

Os autistas podem parecer desinteressados em se relacionar com os colegas em vários momentos, mas algumas crianças nessas condições podem adorar continuar conversando com os amigos sobre um assunto com o qual estão obcecadas. O problema é que eles podem falar sobre isso por muito tempo, ou eles podem falar apenas sobre esse assunto. Isso não pode afastar as pessoas por não gostar de prolongar o assunto.

Assim, podemos fazer a diferença na vida das pessoas especiais e refletir com essa fala, pois diversidade é você convidar o autista para a escola. Socializar é entender as suas limitações e facilidades. Inclusão é chamar para participar do processo e oferecer oportunidades. Lugar de autistas é onde eles querem estar, seja no cinema, na escola, entre amigos, trabalhando, paquerando, enfim, inserido no cotidiano.