Da erva-mate para os tribunais

Advogado Ruy é um dos mais idosos em atividade atualmente em Pitanga

Advogado Ruy é um dos mais idosos em atividade atualmente em Pitanga

O advogado Ruy Oliveira de Melo, 77 anos, é atualmente um dos advogados mais idosos em atividade no município de Pitanga. No entanto, ele começou a advogar tarde, sendo que seus primeiros clientes começaram a aparecer depois de completar 50 anos.

Nascido na cidade de Erebango (RS), em 26 de abril de 1944, ele é casado com a advogada Juliane Alves Torres de Melo, com quem tem a filha Manuela Torres Alcântara de Melo. Ruy é pai de outros sete filhos de relacionamentos anteriores. Em entrevista, ele fala de sua trajetória profissional e o motivo que o trouxe do Rio Grande do Sul para Pitanga.

Paraná Centro – Onde o senhor cursou a faculdade de Direito?

Dr. Ruy – Aos 31 anos de idade ingressei na Faculdade de Direito, da Universidade de Passo Fundo, concluindo o curso em 1980.

Paraná Centro – O que o motivou a fazer o curso de direito?

Dr. Ruy – Em 1964 concluí o curso técnico em contabilidade no “Colégio Comercial Cristo Rei” de Getúlio Vargas/RS. Ao concluir o curso técnico de contabilidade pensei em fazer direito. Para tanto precisaria enfrentar diariamente, mais ou menos, cem quilômetros de estrada de chão, sujeita a nuvens de poeira e ou perigoso lamaçal. A ausência de condições mínimas para tentar a empreitada, levou a postergação do sonho por tempo indeterminado. Em 1965 fui admitido pela empresa ervateira Lohmann, sediada em Erebango, onde ingressei como auxiliar de escritório; no correr do tempo auxiliar administrativo, titular da contabilidade e sócio-gerente.

Paraná Centro – A faculdade de direito foi um complemento à profissão de técnico em contabilidade?

Dr. Ruy – Mais do que isso, foi a realização de um sonho. Ao longo do tempo me tornei amigo do escrivão do cartório distrital de Erebango-RS, que cursava direito. O entusiasmo dele com o curso me contagiou. Ele era solteiro e estudava à noite. Eu, com três filhos pequenos e o trabalho, não me sentia em condições para enfrentar as aulas noturnas e a viagem de ida e volta. Meu progresso na empresa acabou por me possibilitar a escolha do horário de trabalho. Foi assim que em 1975, aprovado no vestibular, me matriculei no turno da manhã. O trabalho, das 14h00 às 23h00. Formado, a carga de trabalho na empresa não me possibilitaria advogar. Comecei na advocacia alguns anos depois de me afastar da ervateira.

Paraná Centro – Como foi sua vinda para Pitanga?

Dr. Ruy – Vim à procura de erva-mate. Em Erebango havia duas empresas ervateiras; a nossa era Erva Mate Lomam Ltda, fundada em 1922 pelo Sr. Alberto Lohman e, outra da família Petry. Embora ambas as empresas tivessem suas próprias plantações de erva-mate havia grande concorrência na compra da matéria-prima ofertada pelos agricultores da região; tal fato acabava por inflacionar o preço da erva-mate in natura. Na procura da matéria-prima mais barata, passamos a percorrer as regiões produtoras dos estados de Santa Catarina e Paraná.

Paraná Centro – Então o senhor veio para Pitanga para comprar erva-mate?

Dr. Ruy – A bem da verdade que o primeiro - da então, nossa empresa – a chegar nesta região, foi um dos meus cunhados, de nome Gustavo, ao qual competia a aquisição da matéria-prima. Eu o acompanhei apenas a partir da segunda incursão nesta região. Inicialmente, saímos a procura de erva-mate cancheada. Erva cancheada é a denominação que se dá à erva-mate submetida a um primeiro estágio de industrialização. Depois de colhidos, os ramos com folhas de mate são conduzidos à indústria, onde o produto é submetido a uma rápida passagem pela labareda que rompe a película externa das folhas, sem causar-lhes descoramento. Na sequência, o produto é submetido à secagem em fornos apropriados, denominados: “carijos”. Nos carijos a erva-mate sapecada é submetida ao calor proveniente de fornos próprios para tal. A retirada do carijo a erva, já seca, é submetida ao cancheamento, ou seja, uma pré-moagem que, pela quebra dos galhos e folhas, reduz o volume do produto, facilitando seu ensacamento para estocagem e ou transporte.

Trabalho na ervateira em Pitanga no ano de 1985

Trabalho na ervateira em Pitanga no ano de 1985

Paraná Centro – O senhor falou que “inicialmente” veio à procura de erva mate cancheada; isto quer dizer que além desse produto também procurava por outros negócios?

Dr. Ruy – Ao tomar conhecimento da existência de grandes ervais, nesta região, nossa empresa entendeu que tanto quanto, ou até mais, que a simples compra de erva-mate cancheada, a aquisição de terras com erva-mate ou para a plantação de ervais, poderia trazer bons resultados. O valor módico das terras em vigor nesta região, naquela época, fazia antever substancial incremento da produção de matéria-prima, a preços inferiores àquela adquirida de terceiros. Foi assim que se chegou à aquisição de apreciável área de terras nas quais, além de colher a erva-mate nativa existente, se iniciou o cultivo de novos ervais. A matéria-prima adquirida de produtores primários em Santa Catarina e no Paraná possibilitou à nossa empresa grande incremento das vendas de erva-mate no Rio Grande do Sul. A ampliação das vendas nos motivou instalar em Pitanga, uma indústria para industrialização primária – secagem e cancheamento. O resultado foi melhor que o esperado, desde 1965 até 1988, data em que vendi minha participação e saí da empresa, o faturamento que inicialmente chegava em torno de 60 (sessenta toneladas anuais), em um determinado mês, chegou a atingir o faturamento recorde de 486 (quatrocentos e oitenta e seis) toneladas de erva empacotada.

Paraná Centro – Depois de sair da ervateira, o senhor mudou para Pitanga?

Dr. Ruy – Quando vim do Rio Grande do Sul, morei perto de três anos na localidade de Limeira, junta à nossa instalação de secagem de erva mate. Ao sair da empresa continuei o plantio de erva-mate, agora em terras de minha propriedade e mantive uma pequena loja dedicada à confecção e comercialização de vestuário.

Paraná Centro – Quando o senhor começou se dedicar à advocacia?

Dr. Ruy - Comecei quase que sem querer, porque eu não tinha ideia de advogar até então; apesar de ter o diploma, só trabalhei como advogado no tempo de estágio, nunca fiz da advocacia um meio de vida. Com quase 50 anos, fiz a defesa para um amigo, que respondia a uma pequena ação, daí em diante as coisas acabaram acontecendo de forma natural.

Paraná Centro – O senhor também já foi juiz leigo em Pitanga?

Dr. Ruy – Sim. Um dia em que não sei precisar, alguém me perguntou se eu aceitaria ser juiz leigo; naquele tempo era nomeado pelo juiz da comarca. Não havia qualquer remuneração. Vi nessa situação uma oportunidade de me entrosar com os outros advogados, e ganhar alguma experiência. Comparando-se com hoje, naquela época, o número de profissionais atuando nesta cidade era diminuto.

Paraná Centro – Qual foi a reação das pessoas quando viram que o senhor estava começando a advogar perto dos 50 anos?

Dr. Ruy – Pode parecer bizarro, mas naquela época eu era mais conhecido do que sou agora. O crescimento substancial da população faz com que, hoje, eu seja conhecido por menor percentual de pessoas do que nos tempos idos. O trabalho com a erva-mate me oportunizava interagir com uma substancial parcela de habitantes da zona rural, dos quais hoje nem notícias me chegam mais.

Paraná Centro – Quem é o advogado mais idoso atuando em Pitanga?

Dr. Ruy – Penso que seja o meu amigo Dr. Jamil Ziegmann, pois quando aqui cheguei, ele já advogava; não era como eu, que só tinha o diploma pendurado na parede. Acredito que, em idade, eu seja o segundo mais velho, mas em tempo de serviço, devem ser os doutores Jamil, Nicanor e Amílcar.

Paraná Centro – Quando decidiu se dedicar à advocacia, em que área escolheu atuar?

Dr. Ruy – A única coisa que eu tinha certeza que nunca faria era a área penal. Na faculdade, do penal eu estudei o suficiente para passar, porque eu tinha horror ao tema. No meu estágio, por indicação do orientador, o magistrado me incumbiu da defesa de um rapaz que furtara uma sanfona. Minha petição mais parecia uma estorinha de humor. Foi a única ação penal da minha vida. Hoje me atenho ao cível e família. Muitas foram as ações de usucapião, reintegração, indenização, guarda, alimentos, divórcio – adoção.

Paraná Centro – O que o motiva a continuar atuando na advocacia?

Dr. Ruy – A advocacia me obriga continuar atento, não me deixando sucumbir à acomodação dos esquecimentos próprio da minha faixa etária. A ação de família é uma das mais desgastantes, quando se trata de divórcio e alimentos, no inventário a ausência do principal personagem, algumas vezes propicia briga feia entre os sobreviventes, há os que querem o máximo para si, já outros que embora com “olho gordo”, se negam à mínima colaboração qual seja se fazer representar por advogado, preferindo figurar como revel, irritando aos demais.

O que eu não deixo de fazer de forma alguma é ação de adoção; maravilhado com coragem e desprendimento dos adotantes, nunca cobrei e nunca cobrarei tal ação. Meu interesse pela adoção começou ao testemunhar a felicidade de uma das minhas filhas e seu marido quando conseguiram adotar um menino, hoje com 21 anos.