Pai caminhoneiro ajuda as filhas a se formarem dentistas

Irmãs Paula e Daiane com os pais Paulo e Delia Inês Dal Santos diante do caminhão da família

Irmãs Paula e Daiane com os pais Paulo e Delia Inês Dal Santos diante do caminhão da família

O empenho dos pais para possibilitar que os filhos estudem praticamente não tem limites. A maioria se sacrifica de várias maneiras para proporcionar o estudo adequado aos filhos. Para ilustrar esse empenho e também homenagear todos os pais por esses sacrifícios, conversamos com a odontologista Daiane Dal Santos, filha de Paulo Roberto Dal Santos e Delia Inês Weber Dal Santos.

Nascida na comunidade de São Berto, município de Pitanga, a família veio para a cidade para que ela e a irmã Paula pudessem estudar e o pai Paulo Roberto desfez a sociedade da família no sítio e comprou um caminhão.

Paraná Centro – Como foi seu início de carreira?

Daiane Dal Santos – Foi muito difícil, pois não é fácil manter um consultório particular. As pessoas ainda não conhecem seu trabalho. Começamos com um consultório na Fisiocenter, algo pequeno e tive a oportunidade de trabalhar em outra empresa por 8 anos; nessa época ainda tivemos muitas dificuldades, pois meu pai sofreu um acidente de caminhão, a minha irmã estava na faculdade e estávamos construindo a primeira clínica, com dinheiro contado e a minha mãe comprava as coisas à vista, para economizar. Depois veio a construção desta clínica e quando eu olho para trás vejo o quanto Deus foi muito bom conosco, pois batalhamos muito. Quando trabalhava para a empresa onde comecei, atendia em seis clínicas e chegava a atender acima de 40 pacientes em um único dia e, tudo isso, porque havia um propósito maior.

Paraná Centro - Como foi sua decisão para área de odontologia?

Daiane Dal Santos - No começo, eu estava insegura, tinha medo de falar para meu pai que queria fazer odontologia, pois era um curso caro; passava mal em todo o vestibular que fazia, porque ficava muito nervosa e tinha dificuldade com isso, o controle emocional era muito complicado. Um dia cheguei para ele e disse que queria fazer odontologia, mas também tinha outros cursos em mente, mas a maior preocupação era como iria pagar a mensalidade e todo mundo falava que o material também era muito caro, além disso tinha o medo e a insegurança de um adolescente. Mas meu pai disse que não tinha nenhum bem para deixar para mim e minha irmã, que não fosse os estudos, e que iria fazer o que pudesse para que as duas filhas dele se formassem, para que fossem boas profissionais e boas pessoas.

Paraná Centro – Onde você cursou faculdade?

Daiane Dal Santos – Estudei na Faculdade Ingá, em Maringá; os primeiros 40 dias em uma cidade grande foram difíceis, nunca havia andado de ônibus e precisava fazer tudo sozinha, ir a mercado, banco e a lidar com tudo.

Paraná Centro - E nessa época, seu pai já trabalhava com a carreta?

Daiane Dal Santos - Desde que minha irmã tinha um ano de idade, ele começou a trabalhar com a caminhão. No início, ele começou com um caminhão Mercedes-Benz azul, depois comprou um caminhão Scania, que ele tem até hoje e passou por reforma. Ele era agricultor, mas devido às dificuldades, teve que ir para um novo caminho, procurar outros meios, já que tinha duas filhas para criar e não podia deixar faltar nada em casa.

Paraná Centro - O esforço que ele fez para custear sua faculdade, marcou sua trajetória de vida?

Daiane Dal Santos - Marcou cada minuto, pois aprendemos a valorizar cada centavo que ele mandava, estudar de verdade. Eu tinha essa obrigação de fazer de tudo pelo esforço que ele estava fazendo. Meu pai e minha mãe são pessoas maravilhosas, tenho uma família incrível e acredito que foi isso que me levou a ter o que tenho hoje e sempre trabalhamos juntos. Uma situação que me marcou também foi um dia que eu liguei para ele, era mais de meia-noite, para saber como estava e falou descendo para Paranaguá para descarregar. E eu lhe disse que estava começando a estudar para a prova. E me falou assim: “Enquanto você estuda, seu pai está descendo para Paranaguá, para descarregar o caminhão, lá pelas seis da manhã eu descarrego e já volto; e se você vai passar a noite estudando, o seu pai vai passar a noite trabalhando para não faltar nada para vocês”. Ele sempre foi muito trabalhador, dedicado, uma pessoa muito esforçada. Meu pai, às vezes comia banana com pão, não comia em restaurante e não tomava uma cerveja com os amigos para não gastar.

Paraná Centro – Como foi para ele bancar seus estudos?

Daiane Dal Santos - O caminhão era algo que não tinha um rendimento constante e acredito que, hoje, dificilmente, um caminhoneiro conseguiria pagar uma faculdade de odontologia. Na época, o custo mensal era de R$ 3,5 mil, isso há 15 anos, com mensalidade, material, moradia e alimentação. E acredito que entre 70% a 80% do que era gerado pelo caminhão ia para cobrir esses custos. Nessa época, minha mãe conseguia manter as coisas em casa, porque no sítio sempre tivemos uma horta, criação de boi ou algo assim, sempre equilibrando e nunca com um gasto exagerado e a minha mãe também vendia roupas, enxoval de batizado para poder manter a casa. Sem contar que, no final do ano, esses gastos eram ainda maiores com a rematrícula e com a manutenção do caminhão, compra de pneus e essas coisas e tinha mais um gasto de cerca de R$ 10 mil com o material para estudar, xerox e livros, mas a gente sempre ia se virando.

Paraná Centro - Ele também pagou os estudos da sua irmã?

Daiane Dal Santos - Sim, ele pagou a minha faculdade em 2009, a minha irmã pulou um ano, pois ela é seis anos mais nova e começou a estudar em 2011, mas, na época dela, ficou um pouco mais fácil porque eu já estava trabalhando e conseguia dar uma ajuda em casa. Não ganhava muito, mas ajudava a aliviar as contas e tanto que conseguimos fazer a formatura dela. Eu não consegui ter a minha formatura, por causa dos custos da época, e o pai não tinha dinheiro. Mas foi bonito por parte da minha irmã, pois me escolheu para entrar com ela, justamente para compensar, porque eu não tive esse momento na minha formatura e entramos dançando; são momentos assim que marcam a vida da gente. Ela sempre teve o sonho de ser dentista e de trabalharmos juntas. Agora podemos crescer juntas.

Paraná Centro - E a infância de vocês foi na área rural?

Daiane Dal Santos - Eu nasci no São Berto e a nossa vida nunca foi fácil. Até os cinco anos ficamos na área rural e tive aquela infância maravilhosa, de andar a cavalo e tudo mais. Meu avô paterno morreu quando meu pai tinha 17 anos e ele teve que assumir a lida e cuidar das coisas para a minha avó. A minha mãe é gaúcha, veio do Rio Grande do Sul, não tinha posses e quando separaram a sociedade, foi quando meu pai começou a trabalhar com o caminhão. Quando eu comecei a atender na Fisiocenter, minha irmã estava no terceiro ano e já ia ao trabalho comigo, ia no consultório para ver e, após esse um ano, ela foi para a faculdade. Nós trabalhamos para terceiros, para conseguir um capital e construir nosso consultório. E quando ela se formou, esse espaço, onde funciona a clínica, já estava pronto há dois anos e ela veio e começamos a atender juntas.

Paraná Centro - Como foi a mudança no nome da clínica?

Daiane Dal Santos - No início, o nome da Clínica era Dal Santos e a Sorelle foi um projeto da minha mãe. Abrimos em Turvo uma clínica em sociedade com outros profissionais, mas decidimos tomar um rumo só nós duas. No entanto, nessa fase, eu tive sérios problemas de saúde e precisei sair da empresa que eu trabalhava. Tive que passar por cinco cirurgias de uma neoplasia maligna no útero. Meu pai me acompanhou em todas as cirurgias, cuidando de mim; nessa época, eu tinha que trabalhar e ele não tinha mais condições de dormir em hotel e ficar viajando, sem se alimentar direito. Resolvemos abrir a clínica só nossa. O nome Dal Santos é italiano e o Sorelle significa irmãs em italiano; minha mãe já tinha em mente que, quando fôssemos abrir uma clínica, colocaríamos Sorelle, que era um nome bonito. Apesar de a minha mãe ser de origem alemã, ela abraçou a ideia do Sorelle e todo mundo gostou; nos empolgamos e decidimos que iríamos colocar o coração como logomarca, pois simbolizava o amor entre os irmãos, a união da nossa família e também para atender outras famílias.

Paraná Centro - Percebe-se que sua família passou por muitas dificuldades. Quando lembra dessas situações, o que pensa?

Daiane Dal Santos - Nunca desistir. Você pode estar doente, mas tendo a família do lado, você vai superar. A pessoa pode perder um filho, como aconteceu comigo e essa é uma situação que não desejo para ninguém, mas vai superar. É preciso levantar a cabeça. Podemos passar por pandemia, por problemas dos mais variados, dificuldades, mas sempre deve se fazer o certo e o bem, levantar da cama e correr atrás, que vai dar certo. Se perguntar para o meu pai, ele diria para agradecer a Deus pelo dia, pedir sempre saúde e o resto a gente consegue e para isso basta ter força de vontade.