Agricultor Estanislau Gzegoski, que tem mesma idade de Pitanga, relata sua trajetória

Estanislau e Olga Gzegoski

Estanislau e Olga Gzegoski

Estanislau Gzegoski, conhecido como Nene Gzegoski, nasceu em 6 de março de 1944, na localidade de Borboleta, perto da área dos índios; filho de Cassemiro Gzegoski e Estefânia Gzegoski. Casado com Olga R. Gzegoski é pai de três filhos João, Zélia e Ilma e teve outros três filhos falecidos Jonas, Antônio e Elizeu. Em entrevista, ele conta como foi sua vida em Pitanga.

Paraná Centro – Qual a primeira lembrança que o senhor tem de Pitanga?

Estanislau Gzegoski – De quando fui para ser interno no Colégio Santa Terezinha, em 1953, para estudar lá. Nessa época, tinha apenas quatro casas de comércio. Havia muitas serrarias, beneficiando os pinheiros que eram cortados das terras abertas para se transformar em propriedades rurais e as mangueiras, que eram usadas para a criação de porcos para a venda. Vim para a cidade quando tinha 8 anos para estudar; fiquei no colégio por quatro anos e sai em dezembro de 1956. Na época que cheguei à cidade, lembro que tinha um posto de gasolina e uma farmácia. Pitanga teve a primeira padaria na Av. Inter. Manoel Ribas, que era do pai do Renatinho dentista, o Sr. Manoelito Fernandes, que fazia e entregava dos pães de madrugada. Em 1953 foi construída a casa onde hoje é o Lar dos Idosos Sant’Ana, e foi o primeiro posto de saúde construído pelo prefeito Nicolau Schon. Tinha o Colégio Tiradentes, a delegacia, também foi construído o antigo correio, que agora foi demolido, mas era prédio do governo. Havia ainda outras casas de tijolo, como do Mariano Pulter, em frente ao Banco do Brasil. A atual prefeitura foi construída na época que o Sr. Dico Petrechen era prefeito e também o primeiro asfalto, na Inter. Manoel Ribas desde o cemitério até da ponte do Baran e na Av. Visconde de Guarapuava. Depois, quando o governo fez o asfalto de Guarapuava, Campo Mourão a Faxinal, foi feito o asfalto da Conselheiro Zacarias, do trevo de Manoel Ribas até a prefeitura, e da ponte do Baran até o trevo da Pitanguinha; naquela época era pouca arrecadação, mas eles faziam muitas coisas. Eu vi construir esse asfaltão, no tempo do governador Jaime Canet Júnior, do deputado estadual Jurandir Messias e prefeito Dico Petrechen, na antiga República.

Paraná Centro – Por que o senhor foi estudar em um colégio de internato?

Estanislau Gzegoski – Meu pai morreu no ano de 1952 e meu tio me colocou no colégio das freiras em 1953, que era o Instituto Santa Terezinha, a escola ainda era de madeira.

Paraná Centro – Quando o senhor estava no Colégio Santa Terezinha, quantas alunos moraram lá?

Estanislau Gzegoski – Eram 53 meninos, mas o número de meninas era maior, eram em média 60 meninas. Havia crianças de outras cidades, como de Ivaiporã, que na época era chamado de Sapecado, Boa Ventura São Roque, Palmital e Santa Maria do Oeste; todos vinham para o Colégio Santa Terezinha, que era um educandário muito bom. A gente ficava interno no colégio, morava e estudava no mesmo lugar. O ensino era até o 4º ano, inclusive, permanecia na escola nos finais de semana. Só nas férias do mês de junho e no final do ano a gente ia para casa. Eu ainda me lembro o nome das freiras, a irmã Júlia, irmã Genoveva, irmã Antônia, irmã Clarinda, Lourdes e a Sofia. Na escola, tinha aulas de datilografia e piano. As irmãs eram de fora e pertenciam à Sociedade do Verbo Divino.

Paraná Centro – Tinha custo para estudar nesta escola?

Estanislau Gzegoski – Elas eram professoras estaduais, mas a gente pagava para ficar no internato. No meu caso, eu paguei 200 mil réis por ano e fiz os quatro anos nesse custo, mas era meu tio que pagava. Na época, ele tinha fazenda.

Olga e Estanislau Gzegoski em 1970

Olga e Estanislau Gzegoski em 1970

Paraná Centro – Onde vocês moravam quando seu pai faleceu?

Estanislau Gzegoski – Morávamos na Limeira. Eu nasci perto da reserva indígena e, pouco tempo depois, viemos para a região da Limeira. Meu pai comprou 4 terrenos na Limeira, para ter a criação, pois na época não se plantava pasto e tinha que ter um “faxinal” para soltar o gado, os animais e os porcos. Em novembro de 1956, morreu meu tio, que me colocou no colégio interno e, em 1957, eu voltei para o sítio e fomos morar em São João da Colina, perto do Rio Pitanga. Lá eu ajudava meus irmãos e minha mãe; tinha 13 anos, na época, e criávamos porcos, plantávamos milho, feijão, arroz, centeio e trigo (era malhado a cacete) e arroz (socado no monjolo). Começamos a engordar porco para pagar o terreno.

Paraná Centro – Como o pessoal fazia a vendas dos porcos naquela época?

Estanislau Gzegoski - Havia compradores de porcos aqui em Pitanga, que levavam os animais a pé para Ponta Grossa, para revender lá. A partir de 1953, começaram a surgir os primeiros caminhões que faziam o transporte dos porcos e era até bonito ver os porquinhos sendo transportados pelos caminhões.

Paraná Centro – O senhor chegou a acompanhar alguma dessas viagens a Ponta Grossa?

Estanislau Gzegoski – Não, eu não cheguei a ir junto, mas sabia que era muito demorado e que durava dias e dias essas viagens. Tinha os paióis e as mangueiras na beira da estrada para que eles pudessem descansar e dormir, além da venda de milho para alimentar os animais.

Paraná Centro – O que seus pais contaram sobre a vinda deles para cá?

Estanislau Gzegoski – Meu pai veio da Tchecoslováquia, aos nove anos de idade. Mataram o pai dele na guerra e a vovó veio com ele para cá em 1909 e ele se criou na região conhecida como Rio dos Índios, Ivaí Calmon, que hoje é a cidade de Ivaí, Colônia Velha. Mais tarde ele se casou com a mãe e vieram para Pitanga. O governo deu 300 alqueires de terra para ele em São João da Colina, mas, na época, era tudo sertão e ele entrou abrindo picada e só depois de 10 anos apareceram uns vizinhos. Quando ele morreu tinha 570 alqueires de terra e, naquela época, ele ganhou terreno bom e grande. Ele começou em São João da Colina e depois comprou 4 terrenos na Limeira, sendo dois de cinco alqueires, um de 50 alqueires e outro de 37 alqueires.

Paraná Centro – Como seu pai conseguiu esse terreno?

Estanislau Gzegoski – Ele foi a Guarapuava e requereu 300 alqueires de terra pelo Exército; ele teve autorização e veio a Pitanga com um cavalo emprestado e alguns guardas florestais foi à comunidade do Pitanga Abaixo. E foram fazendo o levantamento até o final. Depois, meu pai, meu tio e um amigo vieram e entraram a pé derrubando o mato.

Paraná Centro – De onde veio sua mãe?

Estanislau Gzegoski – Minha mãe veio de Rancharia (SP) de família de austríacos, que vieram como imigrantes. Depois de um tempo, meu avô veio para a localidade de Rio dos Índios e ali ela conheceu meu pai, que era um rapaz muito ajeitado. Eles se casaram e tiveram oito filhos e sou o único que ainda está vivo.

Nene Gzegoski e seu xodó, o trator Cinquentinha

Nene Gzegoski e seu xodó, o trator Cinquentinha

Paraná Centro – E como ele conheceu a sua mãe?

Estanislau Gzegoski – Conheceu nas Marrecas, Colônia Velha, nessa região que hoje é o município de Ivaí.

Paraná Centro – O que mais eles contavam sobre o início de Pitanga?

Estanislau Gzegoski – A mãe ficava costurando e remendando as roupas à noite e me contava muita coisa, a exemplo que eles chegaram a trabalhar com os índios, que cortavam o mato, “quebravam” o milho, pois o sítio ficava muito perto da área indígena. Meu pai foi a Curitiba conversar com o Governo que deu um título de 102 alqueires para ele, mas, na época, ele ainda não era naturalizado, tinha apenas o passaporte; eles pediram para que o pai se casasse no civil e registrasse os filhos, e depois fosse lá que iriam registrar o título. Mas passou um tempo e ele foi fazer uma viagem para Ponta Grossa para levar porco e depois iria para o Mato Grosso para ver outras terras, mas teve um incidente, voltou para casa e pouco tempo depois faleceu.

Paraná Centro – O senhor ficou bem conhecido por fazer o transporte das pessoas de São João da Colina para cidade?

Estanislau Gzegoski – Na época eu tinha um fusca e era praticamente a única pessoa que se dispunha a vir a qualquer hora, de dia ou de noite para a cidade. Era uma forma de ganhar um dinheiro extra, pois as pessoas pagavam pela corrida. Outras pessoas tinham carro, mas quando chovia não vinham e ficava para eu fazer as corridas. Era um trajeto de 26 quilômetros e ficava na metade do caminho entre Pitanga e Manoel Ribas. Eu também era sócio e membro da diretoria do Sindicato Rural desde 1968, quando casei. Teve época que éramos em 7 mil sócios; fiquei sócio por uns 30 anos e conseguia algumas consultas de graça para as pessoas e, por isso, muita gente ia atrás de mim. Naquela época, tinha médico, remédios do Laboratório do Governo Federal - CEME distribuído para os pacientes; tinha dentista e cabeleireiro que atendiam pelo sindicato. Tenho muito orgulho do Sindicato Rural de Pitanga, que é a casa do agricultor e está em boas mãos.

Paraná Centro – Quantos fuscas o senhor teve?

Estanislau Gzegoski – Eu tive quatro fuscas e duas pampas; o primeiro fusca eu comprei no ano de 1972, mas antes disso, desde solteiro, eu tinha uma carroça, que usava muito para ir à cidade levar arroz para descascar e milho para moer no moinho e trocar por farinha; e fazia as compras para o mês inteiro, gastávamos 2 dias, íamos até a Limeira, dormia na casa da dona Francisca (sogra já falecida), para descansar e tratar os animais, no outro dia seguia viagem.

Paraná Centro – O senhor também acompanhou muito a evolução da agricultura em Pitanga?

Estanislau Gzegoski – Sim, quem trouxe, por exemplo, o gado de leite para Pitanga foi o prefeito Otacílio, que trouxe também a inseminação e um laticínio. Pitanga já chegou a ser o segundo maior produtor de leite e, hoje, é o oitavo por causa dessa época, mas falta o incentivo para os pequenos agora.

Paraná Centro – Como o pessoal fazia para vender os produtos agrícolas naquela época?

Estanislau Gzegoski – Há uns 40 anos ou mais, para vender milho tinha que ir para Guarapuava e para vender arroz e feijão para Ivaiporã; aqui não tinha quem comprasse os produtos. Tinham uns que funcionavam como atravessadores, que compravam por um preço bem menor e sem nota e vendiam por um valor bem alto em Guarapuava, até que, na época do deputado Jurandir Messias, começou a chegar as empresas como a Paineira, onde estive na inauguração, a São Luiz, que hoje é a Producerta, só que não tinha agrônomos, só começou a chegar com a vinda da Coamo para cá. Depois vieram outras empresas e foi melhorando cada vez mais.

Paraná Centro – Como o senhor vê a cidade hoje?

Estanislau Gzegoski – Pitanga sempre foi uma cidade boa, abençoada, tanto de clima como de água e de pessoas boas, sempre tivemos um povo trabalhador, um lugar bom e, graças à agricultura, nossa cidade cresce a cada dia, está cada vez melhor; tem um povo acolhedor e é uma cidade muito bonita. Pitanga precisa mesmo é de indústria grande para ficar melhor ainda...