Cartorário narra trajetória de 62 anos vividos em Pitanga

Izabel e Zitomir Antunes

Izabel e Zitomir Antunes

Zitomir Antunes é nascido em 30 de janeiro de 1944, na cidade de Irati (PR), filho de Zeferino Antunes e Tereza Spreia Antunes e se mudou para Pitanga em 1960, aos 16 anos. Casado com Izabel Aparecida Antunes há 55 anos, têm quatro filhos: Graziela, Gizele, Paulo Ricardo e Izabelle e cinco netos. Em entrevista ao jornal Paraná Cento, ele fala sobre o trabalho no Cartório de Registro Civil e do período em que trabalhou como escrivão no Cartório Criminal no fórum de Pitanga. Zitomir Antunes também construiu a primeira piscina do município, em uma propriedade onde atualmente fica a AABB.

Paraná Centro - Qual era a função dos pais em Irati?

Zitomir Antunes – Minha mãe era professora e meu pai era escrivão na cidade de Inácio Martins e quando abriu vaga no cartório de Pitanga, ele pediu a transferência para cá. Na época, eu estudava em Curitiba e, depois de um tempo, meu pai ficou muito doente e eu vim para ajudá-lo.

Família de Zitomir Antunes

Família de Zitomir Antunes

Em Curitiba, eu estudava no Colégio Estadual do Paraná. Em Irati, estudei o primário e para fazer o ginásio, fui para Curitiba.

Paraná Centro – Antes de vir para Pitanga, pretendia seguir outra carreira?

Zitomir Antunes – Na verdade, eu não tinha decidido ainda e quando vim para cá, ficou mais difícil de estudar e acabei só terminando o segundo grau. Meu pai ficou muito doente e faleceu depois de algum tempo e eu fiquei com as funções dele.

Paraná Centro – Como era o serviço do cartório naquela época?

Zitomir Antunes – Nosso trabalho era manuscrito, muito pouco se fazia à máquina; fazíamos praticamente quase tudo à mão. Eu era Escrivão Criminal e Civil das Pessoas Naturais, também ajudava no Tribunal do Júri e fazia a função de escrivão nos julgamentos, tanto no Penal como no Civil.

Paraná Centro – E havia muito trabalho aqui, naquela época?

Zitomir Antunes – Tinha muito volume de trabalho, pois vários municípios ainda pertenciam à Comarca em Pitanga, como Palmital, Nova Tebas, Boa Ventura de São Roque, Ivaiporã, entre outros. E sempre tinha trabalho no Tribunal do Júri. Nessa época, eu colhia todos os depoimentos que ocorriam no tribunal do júri e fazia a transcrição. Um fato que chamou muito a atenção, na época, foi um homicídio na cidade, que nem asfalto tinha. A vítima tinha um caminhão e, em frente onde hoje é a Auto Peças Baran. A vítima estava com o capô do caminhão aberto, mexendo no motor, e um homem chegou por trás e lhe deu um tiro na cabeça e caiu em cima do motor; e esse foi um dos casos que foi para júri.

Paraná Centro – O senhor sabe a data correta em que o cartório foi instalado?

Zitomir Antunes - O cartório teve início aqui em 1925, mas ainda não era comarca, era distrito de Guarapuava; em Pitanga foi instalado em 1944, quando se transformou em comarca, mas, antes, o cartório de registro civil funcionava dentro o fórum. Naquela época, o fórum era uma casa antiga e lá funcionavam todos os cartórios.

Paraná Centro – Como vocês faziam a transcrição das oitivas?

Zitomir Antunes – As certidões eram datilografadas, mas os livros eram manuscritos, pois os livros eram encadernados e não tinha como tirar as folhas. Era difícil, tinha que ter muita rapidez para datilografar. Em um júri era muita coisa para escrever e passávamos horas escrevendo. Eu fiz um curso de datilografia e fui me aperfeiçoando devagar. Trabalhei no registro civil, no criminal e também no cartório de títulos e documentos. A quantidade de serviço era muito grande e o pessoal tinha que vir a Pitanga para registrar, pois, o Cartório de Títulos e Documentos só tem na Sede da Comarca.

Zitomir durante trabalho no Cartório de Registro de Pitanga

Zitomir durante trabalho no Cartório de Registro de Pitanga

Atuação como escrivão no tribunal do júri

Atuação como escrivão no tribunal do júri

Paraná Centro – Até que ano o senhor trabalhou no cartório criminal?

Zitomir Antunes – Fiquei trabalhando no cartório criminal até 1972, quando pedi exoneração, pois não estava mais aguentando ver a quantidade de crimes que ocorriam e também não concordava com muita coisa que acontecia por ali. Eu assumi quando meu pai deixou o cartório, em 1966, e fiquei até o ano de 1972, ou seja, por seis anos. A partir daí fiquei apenas como titular do cartório de registro civil e de títulos e documentos e das Pessoas Jurídicas. E foi bem nessa época que eles começaram a desmembrar os cartórios, como o tabelionato de notas, que teve sede própria bem como o Registro Civil e RTD e PJ.

Paraná Centro – E onde foi a primeira sede do cartório de registro civil aqui em Pitanga, depois que vocês saíram do fórum?

Zitomir Antunes – Alugamos uma sala na Rua 7 de Setembro e ficamos por ali, por cerca de três anos e depois, compramos o terreno e construímos o cartório, na Rua Caetano Munhoz da Rocha, nº 370, onde estamos até hoje.

Paraná Centro – Quais são as primeiras lembranças que o senhor tem do município de Pitanga?

Zitomir Antunes – A vida aqui era difícil, existiam apenas casas de madeira; na cidade não tinha asfalto e, por isso, nos dias quentes

tinha muita poeira e, quando chovia, tinha muito barro. Também fiquei, por alguns anos, respondendo também em Boa Ventura do São Roque e Nova Tebas e tinha que ir quase que todas as semanas para esses dois lugares. Na época, não tinha asfalto e tinha que ir por estrada de chão. Era uma estrada bem batida e quando chovia ficava muito lisa. E, antigamente, o registro da criança poderia ser feito em qualquer cartório do Registro Civil, diferente do que é hoje, que tem que feito na cidade que nasceu ou na cidade de residência dos pais e, durante todos esses anos, fizemos milhares de

registros de nascimentos, casamentos, entre outros serviços. Tem casos que fizemos o registro da criança, depois do casamento dela, o registro de nascimentos dos filhos e até o casamento desses filhos.

Paraná Centro – O senhor já foi convidado ou teve intenção de ingressar na política?

Zitomir Antunes – Na verdade, fui convidado, mas não gosto de política, já teve muita insistência, mas nunca gostei de me envolver em política.

Paraná Centro – Nessa rotina do cartório, tem algum fato inusitado que chamou atenção do senhor?

Zitomir Antunes – Sempre tem algum fato diferente, mas já tivemos uma situação que a moça veio registrar o filho, mas não poderia colocar o nome do pai da criança, pois ela tinha concebido do próprio pai e daí ele seria pai e avô ao mesmo tempo. Também tivemos a situação de um casamento que o noivo não veio no dia e deixou a noiva chorando; mas ele apareceu no outro dia, dizendo que não pode vir porque estava chovendo muito e, naquela época, não era fácil a comunicação. Mas eles voltaram depois e fizemos o casamento. Também teve um noivo chegou aqui

coberto de barro; ele teve que ir tomar banho e voltar para poder realizar o casamento.

Paraná Centro – O senhor foi o responsável por construir a primeira piscina de Pitanga?

Zitomir Antunes – Eu era dono do sítio, que depois foi comprado pela AABB (Associação Atlética Banco do Brasil). E fui também a primeira pessoa que construiu uma piscina aqui em Pitanga. Comprei um sítio na em Xaxim. Um dia levei a Izabel para conhecer a propriedade, onde eu iria construir a piscina e, muitas vezes, fazia as coisas sem contar. A piscina foi construída de concreto e sem revestimento, mas naquela época, quando precisava limpar, tinha que esfregar muito as paredes dela. A piscina era abastecida por uma nascente que tinha no sítio e isso ajudava a criar um

Primeira piscina construída em Pitanga

Primeira piscina construída em Pitanga

limbo nas paredes; depois de um tempo vendi para a AABB. Acredito que é a mesma piscina que a AABB ainda usa. Construímos ela em 1978.

Paraná Centro – Vocês também tiveram uma empresa de foto e vídeo?

Zitomir Antunes – Quando foi determinada a obrigatoriedade de fornecer a certidão de nascimento e de óbito de forma gratuita, o cartório perdeu grande parte da renda, já que o número de casamentos também diminuiu ao longo dos anos e o governo fez a lei e esqueceu de dar a contrapartida. Antes havia movimento diário de entrada de dinheiro no caixa e, de repente, tivemos uma redução nas receitas e tínhamos que pagar os funcionários, e outras despesas e devido a isso, abri a Click Foto Color Vídeo tendo como principal serviço a revelação de foto, mas também fazíamos filmagem e edição de vídeo.

Paraná Centro – Qual a importância que o município de Pitanga tem em sua vida?

Zitomir Antunes – Me casei com a Izabel no ano de 1966 e já completamos 55 anos de casados. Aqui meus filhos nasceram e foram criados e, por isso, a cidade é muito importante para mim.