Pioneiro foi um dos primeiros funcionários da Prefeitura de Ivaiporã

Quem vê o senhor de 74 anos, não sabe a importância dele na história de Ivaiporã. Jader Vieira de Souza nasceu em 14 de dezembro de 1947, na cidade de Ribeirão do Pinhal, no norte do Paraná; filho de Lázaro Custódio de Souza e Dulcidia Vicentina de Souza. Atualmente, é casado com Nilva Domingues, com quem está há dois anos. Ele é pai de três filhos: Jaqueline Aparecida Silva de Souza Alves da Luz, Selder Aparecido Vieira de Souza e Josiane Aparecida Silva de Souza Anzolim e tem cinco netos Klaudeline, José Cláudio, Fernanda, Felipe e Nathália. Ele casou, pela primeira vez aos 20 anos, com Selma Silva de Souza. Jader Souza foi o primeiro protocolista da Prefeitura de Ivaiporã, pouco tempo de ela iniciar atividades, em 19 de novembro de 1961.

Imagem da notícia.

Paraná Centro - Como foi a vinda de sua família para a região Vale do Ivaí?

Jader de Souza - Meu pai tinha uma fábrica de carroça e carrocerias e, com o tempo, as coisas foram se complicando e ele precisava pegar um caminhão novo e veio para Ivaiporã, em dezembro 1960. Aqui encontramos várias famílias que vieram daquela região de Ribeirão do Pinhal, como a família Teixeira, do seu Ireno Teixeira e dona Cezarina; muita gente havia se mudado para Ivaiporã, naquela época. Meu pai veio e começou a trabalhar na Serraria do Max; inicialmente era para ele trabalhar como encarregado, mas depois de uns três meses resolveu sair, para trabalhar com construções, já que era carpinteiro. Ele percebeu que Ivaiporã estava crescendo e havia bastante trabalho. Na época, morávamos na Rua Alagoas, perto da antiga cadeia e ele construiu umas casas próximas da nossa, perto da rua do Hospital Bom Jesus. Meu pai fez as casas para um senhor que morava na Rua Alagoas e tinha um bistrô para vender loterias, que era do Nelson Alves, mais conhecido como Nelsinho Bilheteiro.

Paraná Centro – Quais as primeiras pessoas que o senhor conheceu em Ivaiporã?

Jader de Souza - Os primeiros amigos foram os com quem tive contato, quando morava perto da Serraria do Max, o Allan Jones e a Sueli, irmã dele; e o pai deles, o seu Onofre, que tinha uma bodega lá perto. Nessa época, eu tinha 13 anos.

Paraná Centro - Qual era seu grau de instrução, quando veio para Ivaiporã?

Jader de Souza - Eu estudei até o que, na época, chamavam de ginásio, pois tivemos viemos para Ivaiporã e aqui não havia escola para eu continuar os estudos. Depois de um tempo surgiu a escola normal, para a formação de professores, mas em Ribeirão do Pinhal, era um tipo de escola apenas para mulheres e eu fiquei com um pé atrás. O ex-prefeito Melvis Muchiuti e o Abílio Mateus, ambos falecidos, me convidaram para fazer o curso normal, mas eu não quis.

Imagem da notícia.

Paraná Centro - Quando começou a trabalhar na prefeitura?

Jader de Souza - Após meu pai construir essas casas na Rua Alagoas, ele foi trabalhar na área rural e, nesse período, estávamos passando por dificuldades financeiras e eu resolvi procurar trabalho. Saí para procurar emprego e, perto da praça da igreja, vi uma tipografia e lá pedi emprego a um rapaz, mas disse que não tinha nada para mim. Em seguida, veio uma senhora e sorridente me perguntou se eu estava procurando trabalho. Ela me perguntou se eu sabia escrever e se queria trabalhar na prefeitura. Então, ela disse que eu seria o secretário da prefeitura. Ela me mostrou o local onde funcionava a subprefeitura e me disse para ir às 9:00 horas e falar com o Mário de Oliveira, que na época era chamado de Mário Peteba.

Paraná Centro - Na época, o senhor tinha 13 anos e alguma instrução, mas sabia que Ivaiporã ainda não era um município?

Jader de Souza - Não tinha passado isso pela minha cabeça, mas eu voltei para casa empolgado com a notícia. Minha mãe me perguntou se eu tinha desistido e disse que, ao contrário, já tinha conseguido trabalho na prefeitura. No dia seguinte, coloquei um sapato de verniz, calça de casimira, meia branca, camisa engomada e fui para a subprefeitura. Cheguei lá, a porta estava aberta, entrei e o Mário Peteba estava atrás do balcão e fiquei meio ressabiado, pois lembro que só tinha o balcão, que era novo, um filtro de água e duas mesas pequenas. Ele me levou para o meu primeiro serviço, que era a limpeza de uma privada, que ficava no fundo da prefeitura. Quando terminei de limpar, em função da sujeira que estava no lugar, chamei o Mário para ver e já estava quase na hora de ir para o almoço; ele pediu para que fosse para a casa e que depois conversaríamos. Quando cheguei em casa, disse para a minha mãe que não voltaria mais e acharia outra coisa para fazer. Nisso meu pai chegou em casa e minha mãe contou o que aconteceu. Meu pai veio, passou a mão na minha cabeça e disse que eles estavam me testando para ver se eu dava conta do serviço e pediu que eu voltasse e que as coisas iriam melhorar. Troquei de roupa, tirei o sapato, coloquei um tênis e uma calça mais antiga e fui. Lá tive que limpar mais duas salas na subprefeitura. No dia seguinte, o Mário já me pediu para fazer um serviço diferente. Que eu fosse à coletoria comprar selos; depois do almoço, ele pediu que eu fosse a uma oficina, perto da coletoria, para alugar uma carroça e pegar um armário que estava pronto e trazer para a subprefeitura. O carroceiro era seu Ernesto Ribeiro Ramos, que me contou que tinha sido pracinha do exército e, chegando à prefeitura, ele ajudou a descarregar o armário e começou a conversar com o Mário; e o seu Herondy Anunziato resolveu contratar o seu Ernesto, com a carroça e tudo, para fazer a coleta de lixo nas imediações da cidade e nos restaurantes. Ele foi o primeiro coletor de lixo da cidade.

...o seu Maneco veio e me deu um abraço e me disse: “olha menino, você está recebendo o primeiro abraço de uma pessoa dentro da Prefeitura de Ivaiporã”
Jader de Souza

Paraná Centro - O senhor participou da instalação da Prefeitura em Ivaiporã. Como foi esse período?

Jader de Souza - Eu comecei a trabalhar em abril de 1961 e essa é uma passagem que gosto de falar. Na época, eu conhecia o seu Manoel Teodoro da Rocha, que sempre estava na prefeitura, para ia levar as guias de recolhimento de impostos da Companhia Ubá. Antes mesmo da instalação do município, começaram a entrar outros funcionários e a prefeitura começou a ganhar corpo. Isso aconteceu porque o Herondy Anunziato, junto com o Manéco Rocha (Manoel Teodoro da Rocha), e com o apoio de um deputado, conseguiu um transformador e instalou uma usina de geração de energia e, com isso, forneceu energia elétrica para a cidade, pois antes só havia luz que era fornecida pela Companhia Ubá, que tinha um gerador próprio, mas funcionava até a meia-noite. Nessa época, os assuntos na cidade começaram a mudar para a política. Lá na prefeitura, estava sempre o senhor Oscar Arruda, que era candidato a deputado, e junto com ele sempre apareciam mais pessoas que falavam em política. Acabei conhecendo os primeiros candidatos à Prefeitura de Ivaiporã, que foram o Manoel Teodoro da Rocha, que eu não lembro certo o partido; José Marques, do PTB; e José Clarimundo, do PDC; e assim começou a ferver a política.

Paraná Centro - O senhor lembra como foi o dia da eleição?

Jader de Souza - Se não me engano, as eleições foram realizadas no dia 10 de outubro de 1961. Que venceu foi o seu Maneco, o Clarimundo ficou em segundo lugar e o José Marques em terceiro. Eu não lembro de todos os vereadores que foram eleitos na primeira eleição. No dia 19 de novembro de 1961, foi a instalação do município.

Paraná Centro - O senhor lembra como foi a solenidade de instalação do município?

Jader de Souza - Foi uma reunião na Câmara, que funcionava em cima do Banco Itaú, onde atualmente é o Hotel Vilhar. Eu queria ir, mas tive que ficar cuidando da prefeitura para o prefeito pudesse ir para lá depois da instalação. Após o término da reunião, eles foram à Prefeitura. O seu Maneco veio no jipe dele e desceu com mais algumas pessoas. O Herondy Anunziato fez um sinal para que eu abrisse a porta e o seu Maneco veio e me deu um abraço e disse: “olha menino, você está recebendo o primeiro abraço de uma pessoa dentro da Prefeitura de Ivaiporã”. Foi algo muito marcante para mim, que ainda me emociono ao lembrar. No dia 21 de novembro, saíram as primeiras nomeações e a portaria nº 5 foi a minha, como protocolista, um dos primeiros funcionários da Prefeitura Ivaiporã. Lembro-me com muita emoção desse momento.

Imagem da notícia.

Paraná Centro - Onde ficava exatamente essa primeira prefeitura?

Jader de Souza - Ficava onde atualmente é o prédio da Casa Agrícola, na Avenida Castelo Branco, próximo à antiga Lanchonete Pai-Pai; mas, na época, era uma rua de terra e eu sonhava que aquela rua seria de asfalto e, a partir dali, a prefeitura começou a ganhar corpo, vieram outros funcionários, e o município começou a comprar carros e máquinas; o primeiro equipamento grande foi um caminhão tanque, que era usado para tirar poeira da rua; e o primeiro motorista foi seu Benedito Canedo Gomes.

Paraná Centro - Quais foram as marcas dessa primeira gestão?

Jader de Souza - O seu Maneco Rocha começou construindo escolas, muitas na área rural e, em 1963, ele construiu o fórum, quando foi realizada a instalação da Comarca. O primeiro juiz foi Dr. Hildebrando Moro, que era de Maringá. Ele também começou a construção da prefeitura e do prédio da Câmara de Vereadores. Maneco comprou casa para o promotor e para o juiz e, por isso, tenho o Manoel Teodoro da Rocha como um grande prefeito, pois quando ele assumiu não tinha nada e eu aprendi o que é ser honesto. O cofre da prefeitura era a gaveta da escrivaninha do Mário Peteba. O dinheiro que entrava era levado no Banco Mercantil, mas quando o Maneco vinha de Curitiba, geralmente, ele trazia algum recurso em dinheiro e pedia para o Mário conferir e depois entregava o recibo e ver se batia os valores. Esse dinheiro era da chamada Cota do Café, que eles iam buscar em Curitiba e traziam em dinheiro vivo e, hoje, eu vejo que lição de honestidade era aquilo.

Paraná Centro - Em que ano começou a construção do prédio, onde atualmente é a prefeitura?

Jader de Souza - Começou em 1964 e mudamos para lá no dia 7 de agosto do mesmo ano. Mas a construção foi muito rápida. Quando mudamos para o prédio novo da prefeitura, tinha poucos funcionários, mas o senhor Maneco Rocha entregou a prefeitura bem estruturada e com vários móveis. Depois eu saí.

Paraná Centro - E como foi colocado o nome da praça central de Ivaiporã?

Jader de Souza - Ainda na época da prefeitura antiga, eu era a pessoa responsável por fazer os carbonados de cobrança de energia elétrica, quando foi instalada a usina de geração de energia. E, na época, foi fechada uma via que seria a praça central, mas não tinha nome e as pessoas começaram a chamar de Praça das Éguas, mas eu não achava um bom nome. Na época, morreu o presidente americano John Kennedy. Chamei o Mário Peteba e sugeri: por que não chamar de Praça Kennedy? Assim que o seu Maneco Rocha chegou, ele comentou com o prefeito, que acatou a ideia e o Herondy Anunziato também gostou; e ficou com esse nome.

Paraná Centro – Quando o senhor se casou?

Jader de Souza - Eu me casei em 1967; conheci minha esposa quando eu tinha 14 anos e ela ainda não tinha 13 anos. Namoramos e, quando tinha 20 anos de idade, nos casamos e tivemos dois filhos. Em 1976, eu comecei a ter problemas com a bebida e não conseguia parar de beber. Eu fazia parte da igreja, dos clubes, da diretoria do ICC e trabalhava com futebol. Fui nomeado juiz de paz e foi nessa época que o meu problema com bebida ficou maior, pois eu ia fazer casamento no sítio e acabava ficando para as festas e bebida me dominou; caí realmente e pedi minha demissão. Eu não era concursado, mas tinha estabilidade pelo tempo de serviço e fui um dos três primeiros estabilizados. Nesta época deixei Ivaiporã.

Paraná Centro - Como conseguiu deixar o vício da bebida?

Jader de Souza - Depois de rodar muito e trabalhar em vários lugares, fui para Pitanga, mas antes de mudar para lá, em Ivaiporã, eu conheci a ARA - Associação de Recuperação do Alcoólatra e depois disso nunca mais bebi. Me mudei para Pitanga, porque um cunhado tinha uma fábrica de uniformes e me pediu que o ajudasse. Eu tinha vontade de trabalhar na prefeitura, mas não conhecia ninguém na cidade. E, em Pitanga, fui fundador da ARA. Depois de um tempo, meu cunhado vendeu a fábrica e eu fiquei trabalhando com o pai dele em uma loja e, por causa da ARA, o chefe da fiscalização da Prefeitura de Pitanga, vizinho meu, me convidou para trabalhar na prefeitura. Em Pitanga, fundamos a associação, construímos a sede e já recuperamos mais de 450 pessoas, gratuitamente. Na Prefeitura de Pitanga fui para o setor de fiscalização e fundei a associação de servidores e associação de artesanato, até me aposentar, como chefe de Vigilância Sanitária.

Imagem da notícia.