Escritora de Pitanga, que já viveu nas ruas, conta sua história

Andreia Murbach

Andreia Murbach

A escritora Andreia Morena de Mello Murbach, 52 anos, está participando de um concurso internacional de literatura, realizada pela plataforma online buenovela.com. O site publica livros online e ela concorre com a obra “Amor de um Milionário”, disputando com autores de todo o mundo um prêmio de US$ 5 mil. Quanto mais pessoas acessarem o livro na plataforma, mas chances a pitanguense tem chance de ganhar o prêmio.

Ela começou a escrever no ano de 2020, após finalizar a faculdade de Artes Cênicas em Guarapuava, quando foi incentivada pela diretora da instituição a exercitar sua escrita. “Sempre gostei de escrever, mas achava que não tinha aptidão; mas a diretora da faculdade me incentivou a escrever o livro, pois escrevia bem e pelos trabalhos apresentados na faculdade. Escrevi o primeiro e mandei para o clube de autores e, a partir daí, escrevi um atrás do outro e já tenho 28 livros escritos”, relata a escritora.

Andreia Murbach tem livros na plataforma Clube de Autores, www.buenovela.com e na Editora Vizeu. Nessas plataformas, o leitor pode ler trechos das obras de forma gratuita e, para continuar lendo, pode escolher entre comprar o livro físico ou livro digital.

Ela ainda não tem nenhuma de suas obras publicada fisicamente, que é um sonho que ela pretende realizar, mas confeccionou um exemplar de cada livro e deixou na livraria de Pitanga. “Meu sonho é publicar um livro com grande tiragem para deixar, pelo menos, um exemplar em cada biblioteca e viver da escrita, mas isso ainda é algo distante”, salienta.

Além do talento para a escrita, a autora tem uma história de vida que daria uma novela. Aliás, o primeiro livro que Andreia Murbach escreveu foi justamente sobre os 11 anos que viveu na rua.

Nascida em Pitanga, ela perdeu o pai aos 18 anos e teve uma relação muito conturbada com a mãe e com os irmãos, tanto que teve que sair de casa. Andreia Murbach se mudou para a Santa Catarina. No entanto, após perder o emprego e atrasar por um mês o aluguel da casa onde morava, foi despejada e acabou morando na rua, já que não tinha nenhum parente naquele estado. “Com a perda do emprego, não tinha condições financeiras de pagar o aluguel e fui morar na rua”, cita.

Na época, Andreia tinha 30 anos e relata no livro como conseguiu sobreviver na rua, sem se envolver em situações ilícitas como o uso de drogas, roubo, assassinato e prostituição. “Mas tive que enfrentar as dificuldades que a rua apresenta, como medo, frio, dor, fome, solidão e o preconceito da sociedade, mas sobrevivi confiando em Deus”, relata.

Ela conta que os percalços para sobreviver nas ruas são muito grandes, pois quem comanda esses locais são os criminosos mais fortes, seja traficante, máfia da prostituição, ou quem usa a rua para tráfico de influência ou outros tipos de crimes. “Eu continuei vivendo minha vida da forma mais limpa para sobreviver; o tráfico dá proteção para a pessoa que não quer entrar no crime, não é usuário de drogas, mas tem que obedecer e, se for preciso, procurar outro lugar para ficar”, relembra.

Mudança de vida

A vida de Andreia Murbach começou a mudar quando ela conseguiu voltar para Pitanga. Na noite de 13 de julho de 2011, ela dormia em uma barraca improvisada ao lado de um lava-car desativado, quando o casal Evaldir e Lúcia Pereira Hey, que passava pelo local, parou para perguntar quem ela era e onde morava. “Eu disse que era de Pitanga e que tinha voltado para a cidade naquele dia; falei o nome dos meus pais, e o Evaldir disse que conhecia minha família e tinha sido amigo de infância do meu pai. Eu estava com muito frio e apenas com a roupa do corpo e, pouco tempo depois, eles chegaram com uma roupa quente e um prato de sopa e começaram a conversar comigo”, lembra.

Depois de alguns dias, o casal procurou Andreia e disse que ela poderia dormir dentro do lava-car abandonado. Na época, a única renda que ela tinha era o que conseguia com a coleta de material reciclável. “Depois de umas duas semanas, eles me procuraram novamente e disseram que tinham alugado uma casa e conseguido alguns móveis com amigos; falei que não tinha como pagá-los, mas disseram que não cobrariam nada”, disse. No ano seguinte, ela prestou concurso para a Prefeitura de Pitanga e passou em primeiro lugar para a função de auxiliar de serviços gerais.

Com o emprego e estabilidade, ela foi convidada por Lúcia Hey a fazer faculdade de artes cênicas na cidade de Guarapuava. “Eles me disseram que se eu passasse no vestibular e conseguisse uma bolsa integral, eles me levariam para fazer a graduação; consegui a melhor nota e a bolsa de estudos”, relata a escritora.

Para escrever o primeiro livro, que conta sua vida na rua, Andreia Murbach teve que lidar com dores emocionais e alguns bloqueios para conseguir colocar tudo no papel. “Depois disso, escrevi um livro atrás do outro e fui convidada pela Buenovela para participar desse concurso internacional e quanto mais acessos eu tiver, mais possibilidades tenho de ganhar o concurso e, por isso, conto com o apoio da população de Pitanga”, comenta.

Andreia Murbach comenta que estar participando desse concurso já é algo irreal para ela, pois dez anos atrás morava na rua e não sabia se estaria viva no dia seguinte. “Hoje, consegui chegar nisso, com o fruto do meu trabalho e apoio das colegas da prefeitura e das pessoas boas que surgiram na minha vida. Isso é muito mais do que eu imaginava”, frisa.