“Não tem outro segredo para o sucesso, a não ser trabalhar...”

Mauro Merigue

Mauro Merigue

A entrevista da Coluna Empreendedor da Semana é com o empresário Mauro Merigue, 69 anos, proprietário das lojas Samek Calçados e Rancho Rural, de Ivaiporã. Ele é casado com Creusa Cordeiro Merigue e tem dois filhos Fernanda Cordeiro Merigue e Rafael Merigue.

Mauro Merigue chegou a Ivaiporã no final da década de 70 e transformou-se em um dos mais tradicionais empresários da cidade. Nesse período, além de fundar lojas importantes, como a El Cid, Pé Legal Calçados, Samek Calçados e Rancho Rural, também foi presidente da Associação Comercial (Acisi) por seis mandatos. Ele comenta como foi sua história empresarial e a importância do associativismo para o desenvolvimento do município.

Paraná Centro - Como foi sua vinda para Ivaiporã e sua decisão de investir na cidade?

Mauro Merigue - A primeira vez que estive em Ivaiporã, foi em 1971, quando um dos meus irmãos havia comprado uma loja aqui e eu vinha trabalhar para ele. No entanto, o negócio não deu muito certo. Depois, em 1974, estávamos negociando outra loja aqui, mas pouco antes disso acontecer, meu irmão sofreu um acidente e faleceu e esse projeto ficou parado. Eu estava em Londrina e fui morar em Loanda para tomar conta da loja desse meu irmão, que faleceu. Depois, voltei para Londrina. No retorno, junto com um irmão mais velho, resolvemos investir em Ivaiporã, pois sabíamos que era uma cidade que estava crescendo.

Paraná Centro - Qual a origem da sua família e qual era o seu ramo de atuação antes de vir para Ivaiporã?

Mauro Merigue - Morávamos na cidade de Garça, no estado de São Paulo, e desde jovens trabalhávamos com lojas. Fomos empregados da Riachuelo por seis anos. Naquela época, as lojas trabalhavam mais com venda de tecido, eram ainda poucas as lojas de confecção, mas eu tinha conhecimento dessa área também.

Paraná Centro - E como foi a chegada e abertura da primeira loja em Ivaiporã?

Mauro Merigue - A primeira loja foi a El Cid e viemos com uma ideia diferente com relação ao atendimento que era realizado nas lojas daqui; e alguns clientes começaram a sugerir para que abríssemos uma loja de calçados. Fomos amadurecendo a ideia e resolvemos abrir a Samek Calçados.

Paraná Centro - Como era o comércio que ocorria em Ivaiporã e o que vocês traziam de diferente?

Mauro Merigue - O crediário foi instituído no Brasil em 1970, com cadastro e duplicata e, quando eu vim para cá, tinha essa ideia de trazer um crediário mais organizado. Trouxemos a ideia de implantar uma ficha formal para fazer o crediário, algo mais completo, com nome de parentes, amigos e referências de onde o cliente comprava e, a partir disso, estávamos usando serviço de proteção ao crédito. Na época, o pessoal trabalhava muito com a confiança e com aquelas notas promissórias amarelas, mas começou a surgir muita falta de pagamento e passamos a trabalhar dessa maneira e muitos amigos do comércio começaram a pegar essas fichas para trabalhar igual. Naquela época, se abrisse o crédito, a gente vendia uma loja inteira e, muitas vezes, precisamos dar uma segurada. Além disso, o prazo máximo era de 90 dias e não havia esses prazos de seis meses ou um ano e nem o governo permitia que se fizesse o crediário a longo prazo.

Paraná Centro - A El Cid também ficou marcada por trazer produtos com mais qualidade?

Mauro Merigue - Já existiam algumas lojas com bons produtos, mas nós investimos em produtos diferenciados. Na El Cid, por exemplo, viemos com mais qualidade nos produtos, que eram mais caros, mas que eram melhores e atendiam mais o cliente. Trabalhamos mais mercadorias da moda, que era algo interessante.

Paraná Centro - Qual a importância de trabalhar com essa diversificação?

Mauro Merigue - Eu abri a Samek, para vender calçados; aqui só tinha uma loja especializada e as demais tinham uma ou outra prateleira com calçados. Tivemos a ideia de ser especializado e fazer a loja apenas com calçados. Na época que abri a loja de calçados aqui, meu irmão já tinha aberto uma loja de calçados em Cornélio Procópio e até eu aprender a mexer com calçados, trouxe um rapaz de lá para trabalhar comigo; ele tinha muito conhecimento de calçados, que era o seu José Sanchez, que todo mundo chamava de Zezinho da Samek, e que me ajudou muito.

Paraná Centro - Como foram esses primeiros anos em Ivaiporã?

Mauro Merigue - Naquela época, Ivaiporã tinha muita plantação de café e quando eu cheguei, tinha ocorrido uma geada muito grande, em 1975 e, a partir do ano de 1980, começamos a ter um problema muito sério, pois as pessoas que estavam na lavoura perderam muito café, ficaram com a terra limpa e não tinham mais como produzir. Acho que, infelizmente, o governo não enxergou isso, não incentivou e não trouxe nada de especial para o produtor, que ficou a ver navios. Lembro que tinha muita gente com dinheiro emprestado do banco e a terra era a garantia, por isso tivemos uma evasão muito grande de pessoas, que foram embora após perder sua propriedade. Eram de 30 a 40 famílias que saíam por dia e iam embora para Curitiba e Campinas e, com isso, perdemos muita gente. Penso que isso ocorreu de maneira incorreta, pois o governo da época não cuidou da agricultura.

Paraná Centro - E como o senhor avalia a evolução do comércio de Ivaiporã nesse período?

Mauro Merigue - Algumas coisas mudaram depois, mas a nossa cidade estava crescendo por conta da visitação que era muito grande, especialmente das pessoas que vinham buscar serviços bancários, já que não havia bancos em todos os lugares. Com esse movimento, o comércio começou a expandir e as pessoas de fora começaram a enxergar Ivaiporã como um filão e outras lojas foram abrindo. Mas, ao longo desses anos, tivemos muitas mudanças e, hoje, as lojas são administradas por jovens, que estão investindo e têm uma capacidade muito grande; investem em produtos com qualidade, melhoram o ponto, as instalações, o atendimento e são poucas as lojas, hoje, que são administradas por pessoas mais velhas; acho que 70% do comércio é feito por mulheres. Basta olhar as redes sociais, eles estão “bombando” e isso tem trazido muita gente para Ivaiporã, movimentando nossa economia, que é algo muito bom. As pessoas estão investindo e construindo uma casa melhor, comprando carro melhor, estudando o filho em um lugar melhor e isso tudo é importante.

Paraná Centro - Comente um pouco sobre sua história à frente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Ivaiporã.

Mauro Merigue - Quando eu cheguei aqui, a Associação Comercial era formada basicamente pelo presidente e uma funcionária, que faziam as consultas do SPC, que era bem limitada. A associação funcionava no prédio do Merico, onde atualmente é a Pernambucanas. Entre os anos de 1977 e 1978, comecei a participar da associação comercial, quando começamos a idealizar outro sistema de trabalho. Na época, criamos uma nova diretoria com um rapaz que veio trabalhar como contador do frigorífico, que tinha aqui. Mas, nesse período, eu já participava da Acisi, entre 1977 e 1978, e fiquei junto com o Cliceu em uma chapa provisória e depois fiquei com esse pessoal. Fui presidente várias vezes, mas nunca gostei muito da reeleição; em apenas uma oportunidade eu aceitei ir à reeleição, porque estávamos na construção do prédio e a associação precisava de muito dinheiro e precisávamos de ações mais arrojadas; fui presidente por seis vezes. Estou na associação desde 1978, ou seja, há 43 anos. Mas a Acisi tem uma história muito boa. Ela tem um prédio que é referência no Paraná, mas isso não é graças ao presidente ou diretoria destes anos todos; eles administraram a associação comercial com apoio do comércio. Sempre tivemos apoio, fizemos muita rifa, compramos consórcios em que a cada quantidade de cotas a gente recebia um carro. A maioria do pessoal do comércio de Ivaiporã é animada e as diretorias formadas ao longo dos anos sempre foram de pessoas muito honestas e sérias e voltadas para o trabalho do comércio.

Paraná Centro - Como você define essa visão do associativismo, ou seja, de estar em uma diretoria da Acisi, muitas vezes, com um concorrente comercial, mas lutando pelo bem do comércio?

Mauro Merigue - No comércio, das 8h00 às 18h00, quem pode mais chora menos, mas depois do expediente, se for preciso, vamos sentar no boteco e tomar uma caipirinha junto para bater um papo; e é assim que funciona. A concorrência saudável é algo necessário. Se eu tivesse aqui sozinho com uma loja, venderia no preço que eu quisesse, atenderia do meu jeito, não funciona dessa forma. A concorrência é muito importante. Lembro-me de uma época em que fechou a HM e outras lojas de móveis e só tinha uma loja de eletrodomésticos, que na época era a Pernambucanas; e isso nos preocupava, porque o cliente que saía de outra cidade vizinha para fazer suas compras não viria para uma cidade que só tinha uma opção para escolha, ele iria para outra cidade e para nós isso era algo muito sério. Hoje, temos opções em Ivaiporã como a Valdar, Mercadomóveis, Brasimóveis, Magazine Luiza e Colombo, e o cliente não precisa sair daqui para ir comprar fora, pois sabe que essas lojas de rede estão aqui. A concorrência é saudável e positiva.

Paraná Centro - Como surgiu o Rancho Rural?

Mauro Merigue - Eu tinha um amigo que comprou essa loja, que ficava próximo onde era o Beef Center, e ele não conhecia o ramo. Um dia, estávamos conversando e ele perguntou se eu não queria comprar a loja, pois não queria mais tocar o negócio. Na época, achei que seria interessante passar para um genro meu cuidar e lembro que fiz uma proposta muito doida para o cara, que era R$ 60 mil e falei que tinha um caminhão que valia cerca de R$ 30 mil e o restante eu pagava dentro de 1 ano; ele aceitou e fiz o negócio. Esse é um ramo diferente, que exige muito do empresário, que tem uma margem de lucro pequena, mas é um ramo gostoso de trabalhar e o cliente é diferenciado, com mais diálogo, mais fácil.

Paraná Centro – Fale de sua experiência de mais de 40 anos no comércio de Ivaiporã.

Mauro Merigue - A primeira coisa que a pessoa precisa ter é disposição, ter muita fé em Deus, pois não se pode sair achando que vai sair de casa e resolver as coisas sem ter Deus no negócio; mas eu penso que a pessoa não pode desistir do sonho. Se não está indo bem, veja o que se pode consertar, reduza um pouco os gastos para se adequar e não tem outro segredo para o sucesso, a não ser trabalhar. Temos que levantar cedo e pensar que vamos vencer. Estamos passando por uma dificuldade muito grande, que é a questão da pandemia, mas o comércio está mudando de uns dois meses para cá, as pessoas já começaram a gastar mais, estão se equilibrando; as lojas estão vendendo mais e isso é importante. Estamos perdendo pessoas e amigos com a doença e sentimos isso. Agora, na economia há épocas de crise e outras não. Ninguém fica sempre no topo, isso é conversa. Em um eletrocardiograma, a linha sempre está subindo e descendo, se ela estiver reta, você está morto.