O urubu e o pavão

Dia desses, navegando por aí, cruzei com uma dessas fábulas sem dono, mas que guardava um final tão surpreendente, que salvei o texto, que conta uma história mais ou menos assim:

Em uma planície muito distante, viviam um urubu e um pavão.

O urubu-de-cabeça-preta, um desses abutres do Novo Mundo, estava alegre, pois tinha acabado de sair de uma corrente térmica quentinha. Bonito, vistoso, de plumagem preta e brilhosa, como águia, erguia sua cabeça depenada e rugosa ao horizonte.

Com visão privilegiada e olfato apurado, não era fã da carniça. Preferia a pupunha e as sementes.

Não era um exemplo de ave perfumada, é verdade, mas estava longe de ser malcheiroso como seus colegas de voo.

E também havia o pavão. Da sua parte, preferia as frutas, as sementes e os insetos. Dono de uma cauda exuberante branca, púrpura, verde, amarela e azul cintilantes, assim como o urubu, nunca admitia em público fraquezas da autoestima.

A solidão da planície, todavia, guardava seus mistérios e, um dia, ambos se encontraram para uma conversa em um galho em comum.

Começou o pavão:

– Sou a ave mais bonita do mundo animal, tenho uma plumagem colorida e exuberante, porém, nem voar eu posso, de modo a mostrar minha beleza. Feliz é você, urubu, que é livre para voar para onde o vento o levar

O urubu-de-cabeça-preta pensou, no início, tratar-se de provocação. Calou-se.

Entretanto, seguiu-se a lamúria do belo pavo, ecoando pelos campos, e chegando aos seus ouvidos alertas. O cabeça enrugada, apesar do elogio, não celebrou.

Pelo contrário, ele também tinha os seus dilemas. E, em vez de agradecer, murmurou:

– Que infeliz ave sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos. Quem me dera ser belo e vistoso tal qual você, pavão.

Foi quando, ao mesmo tempo, os vizinhos tiveram uma brilhante ideia: por que não atingir a ave perfeita, promovendo o cruzamento entre pavão e urubu?

– Seria ótimo! Nosso descendente voaria como um urubu e teria a exuberância do pavão, proferiram em uníssono.

Então cruzaram, cheios de esperança. E esperaram pelo nascimento do primeiro rebento.

No dia do nascimento, a planície se encheu de expectativa. O filhote veio envolto em uma fralda, na boca de uma cegonha branca. Ao desenrolar-se, o esperado bebê chocou a todos. Era um barulhento peru – feinho e desprovido da dádiva de voar.

Moral da história: se a situação está ruim para você, não procure o caminho mais fácil, porque só piora.