Novamente um mundo bipolar

Após o final da Segunda Guerra Mundial emergiram duas grandes potências no cenário geopolítico. De um lado, os Estados Unidos, com seu modelo capitalista, sistema em que predomina a propriedade privada e a busca constante pelo lucro e acumulação de capital. Do outro lado a União Soviética, representando o modelo socialista, que organiza os meios de produção coletivos, inexistência de sociedade dividida em classes, economia planificada e controlada pelo Estado. O mundo tornou-se bipolar, ficando dividido entre essas potencias por três décadas. O choque entre esses dois modelos de organização econômica e social resultou no que conhecemos como guerra fria.

Os americanos investiram pesado no financiamento e reconstrução dos países devastados pela guerra, criando bases para manter sua influência sobre grande parte da Europa e sobre o Japão. Em contrapartida, a União Soviética também influenciava parte do Leste Europeu e da Ásia. É importante observar que, nesse período, a União Soviética não chegou a ameaçar o poderio econômico dos americanos. Na verdade, os soviéticos conseguiram competir por várias décadas no campo militar e, em alguma medida, no desenvolvimento científico.

O resultado dessa disputa entre esses modelos é de conhecimento de todos. No final dos anos de 1980 a União Soviética colapsou economicamente. A partir desse fato, os americanos começaram a “reinar” sozinhos no mundo. Nascia aí uma grande potência econômica e militar. Com 5% da população mundial, os americanos detinham, aproximadamente, 33% da riqueza mundial, algo sem precedentes. O mundo deixou de ser bipolar para se transformar em um mundo unipolar. Esse cenário perdurou por cerca de 20 anos.

Enquanto a guerra fria dividia o mundo, os chineses começaram a abrir sua econômica para as transnacionais. As reformas implementadas por Deng Xiaoping, na agricultura, indústria, área militar, ciência e tecnologia transformaram radicalmente a capacidade de produção da China. Com certeza, esse personagem da história chinesa criou bases para que o país asiático chegasse nesse lugar de destaque no cenário mundial. A revolução foi incentivada, em grande medida, pelo governo americano que desejava reduzir a influência soviética na região e, em simultâneo, levar as multinacionais americanas para explorar a mão de obra chinesa.

A estratégia estadunidense ainda contemplava as questões de consumo, ou seja, contava com fornecedores de bens e serviços baratos, diga-se: fábrica chinesa. Criavam-se bases para um futuro mercado consumidor para as tecnologias americanas. Os consumidores americanos ficavam felizes, haja vista poderem consumir muito, sem gerar aumento de preços no mercado interno (inflação). Esse cenário gerou um fenômeno econômico importante. Enquanto os americanos focavam seus fundamentos econômicos em consumo, os chineses investiam pesado em infraestrutura, principalmente nas Zonas Econômicas Especiais (ZEE), região que concentra a maior parte da indústria chinesa.

Em geral, a visão de desenvolvimento econômico dos Estados Unidos deixou de ser estratégica para ser imediatista. A riqueza americana deixou de ser lastreada na produção de bens e serviços, ou melhor, a produção de bens e serviços passou a ter menor relevância na geração de riqueza e no PIB (Produto Interno Bruto) americano. Hoje a riqueza norte-americana está mais ligada ao capital e pujança do seu mercado financeiro, bem como a geração de valor por meios não produtivos.

A produção de bens e serviços está, em sua maioria, sendo realizada na China. A China é hoje a “fábrica do mundo”, sua riqueza está sendo construída na produção de bens, na geração de tecnologia, inteligência artificial, no desenvolvimento militar, bem como no investimento em infraestrutura e educação. Nesse contexto, os chineses passaram a ter superávits gigantescos na relação comercial com os Estados Unidos, foram décadas acumulando reservas internacionais e até comprando títulos da dívida americana. Hoje, a China é um dos maiores credores dos Estados Unidos.

A consequência econômica dessa disputa geopolítica trará um impacto significativo para a economia mundial, já abalada pela pandemia e endividamento das nações. Entre os diversos setores afetados, pode-se destacar: o desenvolvimento tecnológico; desaceleração da economia mundial; inflação no mercado norte-americano; pressão sobre o setor alfandegário mundial; aumento dos juros nos Estados Unidos, turbulências nos mercados de ações e impactos sobre as commodities. Essas são algumas das consequências mais diretas dessa nova fase da relação sino-americana, que coloca o mundo sob alerta e que pode comprometer a economia mundial por décadas.

Em suma, do ponto de vista militar, o mundo atual é multipolar, considerando, nesse aspecto, os USA, a Rússia e a China como grandes potências bélicas. No que tange aos aspectos econômicos, com a China ameaçando a hegemonia americana, o mundo voltou a ser bipolar. Esta “guerra”, aparentemente, já foi vencida pelos chineses. O mercado consumidor da China já é um dos maiores do mundo. Além disso, a economia mundial não consegue crescer sem o gigante asiático.

Não será uma tarefa fácil para os americanos mudar esse cenário. A interdependência entre as economias é colossal. O pensamento chinês é pautando no longo prazo. Não é uma economia com pensamentos e ações imediatistas. Agora, qual será a reação americana para essa questão? Não há como saber. Vamos aguardar as próximas jogadas no “tabuleiro de xadrez” mundial.

Clayton Pereira de Sá Graduado em Administração, pós-graduado em Gestão de Pessoas, mestre em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia. Atualmente, é professor do Instituto Federal do Paraná – Campus Pitanga.