Cafeicultura de Jacutinga ganha impulso com café de qualidade

Uma das culturas mais tradicionais e que alavancou a colonização de Ivaiporã, a cafeicultura, esteve por vários anos esquecida e muitos produtores deixaram a atividade para se dedicar ao cultivo das chamadas lavouras brancas, como soja, milho e trigo. No entanto, na região de Jacutinga, seja pelo relevo, pelo tamanho das propriedades ou pela tradição familiar, alguns poucos produtores resistiram e continuam cultivando café, que foi muito incentivado nos últimos anos, com um trabalho diferenciado da Prefeitura de Ivaiporã, Emater, Secretaria de Estado da Agricultura e a Associação da Agricultura Familiar de Jacutinga, com a realização do Concurso Café Qualidade de Ivaiporã.

Iniciado em 2018, o concurso já teve três edições e o Paraná Centro conversou com os três ganhadores da etapa municipal, que falaram um pouco sobre a importância desse resgate da cafeicultura e a expectativa para o futuro.

Lucas Rafael e Arcindo Ravar estão esperançosos com melhoria na qualidade do café

Lucas Rafael e Arcindo Ravar estão esperançosos com melhoria na qualidade do café

Uma das propriedades mais tradicionais no cultivo do café, o sítio Ravar, atualmente, é administrado pelo pai Arcindo Ravar e filho Lucas Rafael Ravar, mas conta com a participação de toda a família. Campeões do concurso municipal de 2020, eles aguardam com ansiedade o resultado do concurso estadual, que será revelado nesse dia 19 de novembro, feriado municipal de aniversário de Ivaiporã, com uma expectativa de, se possível, repetir o resultado alcançado há dois anos, quando ficaram em quinto lugar na classificação estadual.

No entanto, a tradição da família já chega há cerca de 100 anos e começou com o avô de Arcindo Ravar, que plantava café na região de Araçatuba (SP), onde trabalhava como colono e por porcentagem em fazendas produtoras de café do interior paulista. Em 1949, o pai de Arcindo Ravar veio para ao Paraná que, na época, começava a ganhar fama como uma importante região produtora de café, especialmente em Londrina e Apucarana. “Ele veio para o Paraná e conseguiu comprar um sítio no município de São Pedro do Ivaí, mas nem chegou a morar nessa propriedade, pois em 1951 mudou-se para Apucarana, onde trabalhou em algumas propriedades daquela região”, conta Arcindo Ravar. Logo na sequência, o pai do cafeicultor trocou o sítio que ele tinha em São Pedro do Ivaí por uma propriedade na região conhecida como Tatuzinho, próximo onde atualmente é a Vila Reis, em Apucarana. Lá ele constituiu família e teve oito filhos, entre eles Arcindo Ravar e, em 1988, ele vendeu o sítio em Apucarana e comprou uma propriedade em Santa Luzia, próximo a Jacutinga.

Geada Negra

Um dos principais episódios que mudou o rumo da cafeicultura no Paraná, principalmente na região Vale do Ivaí e iniciou o processo de êxodo rural, foi a geada negra de 1975. Arcindo já trabalhava na cafeicultura junto com seu pai na época e lembra muito bem sobre o que ocorreu nesse dia. Ele disse que estavam iniciando a colheita pelos cafezais que beiravam os carreadores. Por volta das 16h00 do dia anterior começou a fazer um frio muito forte. “Lembro que meu avô juntou um monte de casca de peroba e pôs fogo para suportar o frio, ainda na véspera da geada e, no dia seguinte, amanheceu tudo preto, em todos os sítios da vizinhança, com todo o cafezal morto. Foi uma tragédia que aconteceu no Paraná, uma época de muita tristeza”, relembra.

Mesmo perdendo toda a lavoura e tendo que renovar a cultura, a família Ravar não desanimou e, durante quase quatro anos, conseguiu sobreviver com o cultivo de feijão e mamona. No entanto, as dificuldades em Apucarana continuaram. No início da década de 1980, outro problema começou a incomodar a família. Em 1982, a família começou a ter problema com uma propriedade vizinha, que tinha uma granja de produção de suíno de grande porte, além disso, os proprietários eram donos de um abatedouro de gado e as sobras, como unhas, focinho e orelhas dos bois e partes que não eram aproveitadas no abate, começaram a ser desovadas no sítio. “Era um volume muito grande de restos de animais jogados no meio do sítio”, relembra.

Márcio Fávaro com a esposa Silvana Marconini e a sogra Geralda Santos Marcomini

Márcio Fávaro com a esposa Silvana Marconini e a sogra Geralda Santos Marcomini

Além do mau cheiro, a desova começou a atrair uma série de vetores, como moscas e borrachudos, que gerou, inclusive, reportagens a nível nacional. No entanto, como época não havia leis ambientais mais rigorosas e a situação obrigou a venda da propriedade e a mudança da família Ravar para Ivaiporã.

Quando chegaram a Ivaiporã, 80% das propriedades daquela região eram produtoras de café e funcionavam como as lavouras em Apucarana. Mas a partir dos anos 2000, com a chegada da soja no Vale do Ivaí, a cultura do café precisou passar por uma mudança importante. “Optamos por trocar os cultivares, mudamos o manejo das lavouras, trocamos por variedades mais produtivas e que permitiam um escalonamento na produção para ter uma qualidade melhor”, ressaltou Arcindo.

A entrada do filho Lucas Rafael Ravar no negócio foi um passo fundamental para a manutenção da família na cultura. Desde que entrou na faculdade de Gestão de Agronegócio, Rafael Ravar começou a entender o sítio como uma empresa e ter a visão de que uma propriedade rural, mesmo sendo familiar, tinha condições de proporcionar uma boa qualidade de vida. “Desde que me formei, tínhamos a ideia de processar o café para agregar valor à produção, mas para isso precisávamos mecanizar o manejo e renovar as lavouras”, disse.

Em 2018, com a realização do Festival do Café, a família foi desafiada a fazer o lançamento da marca própria do café, durante o evento. “Topamos, porque já tínhamos a ideia amadurecida e muita coisa encaminhada e o festival foi a oportunidade para que isso acontecesse e, desde lá, temos aperfeiçoando o processo de produção”, comenta Rafael Ravar.

Depois disso, ele fez um curso de provador de café, que é oficial do Ministério da Agricultura, e a família vem trabalhando na melhoria do processo de produção da marca própria. Atualmente, o Café Ravar é encontrado em 15 pontos de vendas nas cidades de Ivaiporã, Jardim Alegre e Apucarana, com uma venda de 250 quilos por mês, mas que pode chegar até a uma tonelada. “A nossa proposta é produzir um café artesanal, feito 100% com café arábica e com muito carinho, para que o consumidor tenha um café de qualidade em sua mesa”, ressalta Rafael Ravar.

No entanto, hoje, o principal desafio da família é mostrar esse diferencial que o café Ravar tem em relação aos demais cafés industrializados, a qualidade e o sabor diferenciado que tem o produto.

Concurso Qualidade

A família Ravar participou do Concurso Municipal Qualidade Ivaiporã e foi a campeã do ano de 2020 e irá representar o município no concurso estadual desse ano, cujo resultado será revelado no dia 19 de novembro. No entanto, eles também já foram finalistas do mesmo concurso em 2018, quando ficaram em quinto lugar. “A verdade que ser o quinto lugar no Paraná e o primeiro em Ivaiporã teve a mesma emoção, pois é muito custoso produzir um café especial, principalmente, por se tratar de uma avaliação sensorial e que, muitas vezes, não sabemos se o jurado vai sentir as características que achamos que tem o café quando o levamos para o concurso municipal”, frisa o filho.

Para ele, o café desse ano está melhor do que foi para o concurso estadual em 2018, apesar de ter produzido pouco, a qualidade do café foi ótima, tanto em relação aos processos de maturação do grão, ponto de colheita, questões sensoriais, entre outros. “Eu tenho noção que nosso café é competitivo com de outras regiões, mas que também o potencial das outras regiões é muito grande, pois o ano foi bom para a produção de cafés especiais e não temos nada que possa se definido, mas esperamos representar bem o município de Ivaiporã”, ressalta Rafael.

Para Arcindo Ravar, a região do Jacutinga tem um microclima que é diferenciado para a produção de cafés especiais, não pela altitude, que acaba não favorecendo tanto, como ocorre em Minas Gerais e Espírito Santo, mas sim pela latitude, que proporciona um processo de amadurecimento mais demorado e um café com sabores mais frutados e que lembra mais especiarias; quando os cafés de Minas Gerais podem ser mais semelhantes a um sabor mais achocolatado. “Precisamos que a região de Jacutinga seja reconhecida como produtora de cafés especiais e isso vai trazer um diferencial muito importante para a produção local”, comenta.

Prêmio estadual

O principal prêmio já conquistado, até o momento, pela cafeicultura de Ivaiporã e da região Vale do Ivaí, veio pelas mãos do cafeicultor Márcio Fávero, que tem cerca de dois alqueires de café na região dos Três Ranchinhos. Ele foi campeão estadual do concurso Café Qualidade em 2018, título inédito para a região central, e ficou em quinto lugar no concurso nacional promovido pela ABIC. “Acredito que o prêmio foi um incentivo para que outros produtores da nossa região pudessem participar de concursos e, com isso, melhorassem a qualidade do café”, ressaltou o cafeicultor. As duas sacas do café, leiloadas no concurso nacional, foram compradas pela Cafeteria Mazzi de São Paulo. “O resultado, na verdade, foi um pouco diferente da avaliação estadual e a comissão que organiza o concurso do Paraná ficou um pouco decepcionada com a avaliação do concurso nacional, além disso, a cafeteira acha que o nosso café deveria ter ficado em primeiro lugar”, disse Márcio.

Apesar do prêmio e do reconhecimento, financeiramente, o resultado do concurso ainda não se refletiu nas vendas do café do casal Silvana e Márcio Favero. “Estamos procurando melhorar a produção, mas a verdade é que de 2018, de quando ganhamos o prêmio até agora, não conseguimos melhorar a produção, principalmente por causa do clima”, apontou.

Sandra Aparecida Ribeiro de Souza e Valdecir Souza

Sandra Aparecida Ribeiro de Souza e Valdecir Souza

Uma das dificuldades enfrentadas pelos cafeicultores é a falta de chuvas, que está prejudicando demais a produção. Para o ano que vem, o produtor pretende instalar um sistema de irrigação, para garantir a umidade suficiente para a melhoria da produção. O preço pago pela saca do café também não tem sido muito animador, ainda mais pela alta nos preços dos insumos.

Silvana morou a vida toda no sítio e fez com que seu amor pela cafeicultura passasse para o marido, que durante muitos anos trabalhou em um laticínio. Para eles, esse amor à produção do café é que faz com que eles permaneçam no sítio e continuem procurando melhorar a produção. O ex-funcionário da Emater, Pedro Siloto, foi um grande incentivador para que o casal melhorasse a produção e procurasse renovar, não apenas as plantas, mas também a forma de cultivo. “Começamos a fazer cursos em toda a região e, apesar do preço estar ruim, vamos investir na melhoria do solo e também na irrigação da lavoura, pois na agricultura se você não investir, não mudar o sistema de produção, você fica para trás”, afirmou Silvana Fávaro.

O ganhador do concurso municipal de 2019, Valdecir de Souza, tem cerca de um alqueire de café plantado na região da Paineirinha. Ele vive da cafeicultura, no local, há 19 anos, mas confessa que esse ano está sendo um dos mais difíceis, principalmente, pela falta de chuvas, que deve prejudicar a produção do próximo ano. “A lavoura estava cheia de flores, mas as plantas não conseguiram segurar a florada e, se não vier uma chuva boa logo, vai ser bem complicado, as plantas já estão ficando amareladas”, desabafou o produtor.

Souza trabalha com a produção de café desde que era solteiro e era safrista em propriedade na região da Santa Luzia. Depois se mudou para Cascavel e Campo Mourão, onde trabalhou como funcionário em uma empresa de ônibus, mas começou a ter problemas na coluna e, com a rescisão trabalhista, teve recursos suficientes para comprar a propriedade em Ivaiporã.

Com o incentivo da Associação da Agricultura Familiar, Valdecir de Souza tem procurado melhorar os processos de produção do café e, para isso, fez a renovação de parte da lavoura e adotou métodos que têm apreendido nos cursos e capacitações que tem participado, mas confessa que se não fosse a mão de obra estritamente familiar, seria muito difícil continuar tocando a lavoura. “Fazer um café para participar do concurso dá muito trabalho e, se não vender por um preço diferenciado, não compensa”, disse.

Ele tem expectativa de melhoria do preço, principalmente, se o café de Jacutinga começar a ser valorizado como um todo e isso pode acontecer, caso a região passe a ser reconhecida como área de origem. “Hoje, está bem difícil; o preço não está bom, mas gosto de trabalhar com o café e vou continuar”, frisou.

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