Dona Luzia

Hoje acordei e tive a certeza de ouvir minha mãe me chamar! Di! É assim que sempre me chama, Di! Olhei, mas foi só impressão, pois estou com 56 anos, longe de casa e com saudades dela.

Quando olho para história da vida de minha mãe, o sentimento que tenho é um misto de amor, alegria e compaixão! Pois ela sempre lutou muito, trabalhou muito desde muito pequena.

Minha mãe é filha mais velha de uma família com 12 irmãos... Eu disse doze!

Desde seus dois anos já era babá, uma infância muito pobre, sem lazer; seu lazer era o trabalho. Não estudou, sua escola eram os afazeres diários.

Perto dos seus 80 anos, quando está com tempo, se senta na sua velha máquina de costura e tece maravilhosas colchas de retalhos. Tenho duas delas, foi-me dado de presente, portanto as guardo com grande carinho.

Presenteou também as irmãs, as filhas, netos e netas, amigas, vizinhas, cunhadas e sobrinhas. Com seu precioso tempo faz bordados em panos de prato, que usa, vende e doa, principalmente, para suas netas.

Quando tem tempo: faz doces e que doces! De abóbora, de mamão, de leite, é muito difícil ir à sua casa e manter o regime.

Faz pão, bolo, bolachas do além, só podem ser de lá, tamanho o sabor!

Bolachas da vó e pães de vó, como minhas filhas sempre dizem.

E no seu tempo, com ajuda de meu pai, cultiva uma horta em seu quintal, ali planta couve, alface e, quando era mais nova, plantava repolho, milho, batata-doce e mandioca com a qual faz a melhor sopa do planeta, uma sopa indescritível com mandioca e temperos, sem carne, nada de carne! Ela usa apenas mandioca, alho, tomate e sal!

Recentemente estive em sua casa, apesar de estar acamada surpreendeu-me com aquela sopa!

Tem gosto de infância, cheiro de mãe e som de chuva que cai suave sobre nossa casa numa noite fria do Paraná.

Minha esposa e eu tentamos copiar tal iguaria; pusemos nossas filhas em sua casa para espionar, mas nosso empreendimento de espionagem foi um fracasso total. Sopa de mandioca, só aquela... de Dona Luzia!

E assim ela se diverte, estuda e viaja como sempre viveu... Trabalhando!

Sidnei Bavati Fraga

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