O Plano Real e a tempestade perfeita

Lançado em 1994, o Plano Real foi um marco importante na história econômica do país. Com este plano, conseguimos controlar a inflação, iniciando um novo ciclo de desenvolvimento econômico. Para entender a importância do Plano Real, deve-se lembrar de que, em 1993, a inflação superava os 2500%. Algo impensável no Brasil atual. Após a implantação da nova moeda, o valor da inflação média dos governos seguintes manteve-se em patamares aceitáveis. Todavia, vinte e seis anos depois, o país passa, com certeza, pelo maior desafio da sua história contemporânea. Hoje, estamos vivendo uma “tempestade perfeita”, a saber: crise humanitária, política e econômica. O pior, esse cenário se repete em quase todos os quatro cantos do planeta.

Com relação à crise humanitária, temos dois desafios: salvar vidas e evitar o desastre econômico causado pelo desemprego. A pandemia do coronavírus é implacável e tem ceifado vidas em todas as classes sociais. Sem cura, segundo os especialistas, o isolamento social ainda é o melhor remédio para a doença. No campo econômico, a crise deixará milhares de desempregados. Economistas dizem que a crise será sem precedentes e que o pior está por vir. O cenário é preocupante, pois a pandemia afetou a oferta, a demanda e o equilíbrio fiscal.

Já no campo político, o governo parece perdido, sem planejamento e sem objetivos claros. Existe uma crise entre os poderes constituídos, que afeta diretamente a capacidade de planejamento do país. Estamos sem direção. Não há nenhum plano realmente eficiente para devolver a sociedade à dita “normalidade”. Como faremos? Quando poderemos voltar ao normal? Qual é a melhor estratégia para este cenário? Isolamento total ou parcial? Os governantes não sabem. Crise após crise, a atmosfera política brasileira é um vetor de deterioração da economia.

Nesse contexto, é importante destacar o Plano Real que, desde a sua implantação, já foi colocado à prova em diversas oportunidades. Sempre superamos os desafios gerados pelas crises, seja causada pelo ambiente interno ou externo. No entanto, a nossa economia está diante da maior prova de sobrevivência. Nos últimos meses, o cenário macroeconômico piorou drasticamente. Este fato está ocorrendo em várias partes do mundo. Contudo, em economias emergentes como a nossa, as consequências podem ser ainda piores. A pandemia está causando o maior desastre econômico do século. Se nada for feito, entraremos em uma depressão econômica jamais vista na história moderna.

Os fundamentos macroeconômicos que sustentaram a economia brasileira, câmbio flutuante, controle da inflação e equilíbrio fiscal, permitiram que o país acumulasse reservas importantes. Nesse momento, o Brasil possui mais de trezentos bilhões de dólares em reservas internacionais, sendo estratégico para a nação. Estes fatores foram imprescindíveis para que o país pudesse criar uma espécie de “colchão” de segurança para superar os momentos de incerteza. Entretanto, agora é hora de deixar de lado o controle excessivo dos gastos públicos e investir no povo. De forma responsável e eficiente, podemos mitigar os efeitos da crise. A economia vive de ciclos, ora se deve ter austeridade, ora se deve investir no social. Os gestores públicos devem entender que o investimento social é uma política pública eficaz, podendo minimizar os efeitos da crise e reaquecer a economia.

Concluindo, é importante exaltar o Plano Real. É consenso que o referido plano permitiu ao Brasil controlar o fantasma da inflação, gerando um ambiente favorável ao planejamento das famílias. Em um passado recente, uma crise como a que estamos vivendo geraria impactos negativos ainda maiores. Apesar de estarmos vivendo a “tempestade perfeita”, nossos fundamentos econômicos continuam funcionando. Tal fato demonstra o amadurecimento da economia brasileira. O real é um plano eficiente. O tripé econômico pode ser modulado conforme o ambiente, melhorando nossa capacidade de superar as crises. Com câmbio sob controle e inflação dentro da meta, o equilíbrio fiscal pode ser relaxado para que possamos investir na população mais necessitada.

Enfim, para superar esta conjuntura, precisamos da força total do estado. Não é hora da política do estado mínimo. Não podemos adotar a visão de Adam Smith (1723-1790), da não intervenção do estado na economia ou, que uma “mão invisível” irá resolver nossos problemas econômicos. A saída depende da presença e atuação do estado, com todo o seu aparato e ferramentas econômicas voltadas para o bem-estar social. Agora, basta saber se a crise política não será o grande vilão dessa história.

Clayton Pereira de Sá - Professor do Instituto Federal do Paraná – Campus Pitanga

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