Caminho do Peabiru ligava os índios do interior do Brasil com os povos incas

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O lendário Caminho do Peabiru é uma grande trilha pré-colombiana que, segundo estudiosos, fazia a ligação entre os oceanos Pacífico e Atlântico e pode ter possibilitado o contato entre os índios da costa brasileira com os povos incas, que ocupavam a região do Peru.

Segundo o montanhista e historiador Rafael Kosenchen, que escreveu um artigo para o site Ana Wake: Turismo e Aventura, um dos principais personagens para que essa história é o navegador espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vaca. O explorador fez uma viagem de mais de 8 mil quilômetros a pé, saindo da Flórida, nos Estados Unidos, até a cidade do México e depois desembarcou no litoral de Santa Catarina, em 1540, provavelmente, onde hoje fica a cidade de Palhoça. A intenção de Cabeza de Vaca era se tornar governador-geral da província da Prata, mas quando chegou em território brasileiro, ele ficou sabendo que a cidade de Buenos Aires já havia sido tomada e saqueada. A sugestão é que ele seguisse mais ao norte, onde um povoado havia sido erguido e tinha recebido o nome de “A Muito Nobre e Leal Cidade de Nossa Senhora Santa Maria da Assunção”, hoje conhecida apenas por “Asunción/Assunção”, a capital do Paraguai.

Os nativos da época, principalmente carijós e guaranis, contaram diversas histórias a Alvar Cabeza de Vaca, falando sobre um grande caminho que ligava os povos indígenas brasileiros com os povos andinos. Esse era um caminho sagrado tanto para os índios que habitavam a costa brasileira, como também para os povos pré-colombianos. No entanto, os índios atribuíam o caminho a outro “homem branco”, conhecido como Paai Zumé, de onde se criou o mito que o apóstolo Tomé teria passado por esse caminho, pregando a ressurreição de Jesus. Quando os jesuítas souberam da lenda, rebatizaram-no como Caminho de São Tomé.

Mas o que fez com que Cabeza de Vaca procurasse seguir o caminho do Peabiru foi outra lenda que, no final do trajeto, havia uma grande montanha de prata e que dali ele conseguiria chegar ao famoso El Dorado.

Segundo Kosenchen, a lenda relata que Alvar reuniu cerca de 3 mil índios e mais 250 europeus que o acompanhavam na expedição, além de 26 cavalos, e entrou pelo território brasileiro, em novembro de 1951.

Cabeza de Vaca saiu então de São Francisco do Sul e seguiu até as margens da Serra Geral, entrando pelo estado do Paraná. “O ramal principal do Caminho do Peabiru, provavelmente, vinha com seu traçado a partir de São Vicente ou Cananéia, descendo através do Campos Gerais, passando pelos atuais municípios de Castro, Tibagi, Pitanga, Campina da Lagoa, Cascavel e seguia em direção a Assunção; ora cortando ora seguindo o curso de importantes rios da Bacia do Rio Paraná, como o Tibagi, Ivaí e Piquiri, ligando-se com outros caminhos andinos. Inclusive, a UFPR, sob a batuta do arqueólogo e catedrático Igor Chmyz, vem desenvolvendo estudos sobre um trecho que se acredita ser um remanescente do Caminho do Peabiru, em Campina da Lagoa”, cita o historiador.

Mas em seus relatos, Cabeza de Vaca foi o primeiro europeu a conhecer as cataratas do Iguaçu, em janeiro de 1542. Ele conseguiu chegar a Assunção, onde se estabeleceu por ali.

No entanto, o caminho do Peabiru não era uma estrada única. Ela tinha vários ramais, atalhos e entroncamentos. Neles, certamente estão inclusos os hoje conhecidos Caminhos Coloniais do Arraial, Graciosa, Itupava, Conceição e Ambrósios.

Até a expulsão dos Jesuítas do Brasil, em 1759, pouco do Brasil Português era visto por esses lados. A região do interior do Paraná tinha como língua o castelhano e o guarani, bem como tradições marcadamente hispano-indígenas. Reforçando todos esses elos estão as, hoje ruínas, grandes Reduções das Missões Jesuíticas de Villa de Ontiveros (1554), em território paraguaio; Ciudad Real del Guairá (1557), atual cidade de Guaíra e Terra Roxa; e Villa Rica del Spiritu Santo (1570), atual cidade de Fênix. Naturalmente, essas reduções foram elevadas próximas às rodovias da época, facilitando a locomoção, comércio e comunicação entre os territórios. Traçando uma linha lógica entre a geografia e relevo, dados, documentos históricos e artefatos específicos desse período e cultura, facilmente temos o traçado do Caminho do Peabiru, cortando o estado do Paraná sentido aos Andes.