Pioneira foi uma das primeiras produtoras de vinho de Pitanga

A senhora Helena Bonassoli Tizott, conhecida como Dona Heleninha, veio para Pitanga no ano de 1944, quando ela tinha apenas 8 anos. Os pais Josefina e Amadeu Bonassoli vieram da cidade de Rebouças e se instalaram na comunidade de Quarteirão Aparecida. Ela era casada com Carlito Tizott e teve três filhos Claudete, José Juares e Cleusi, 7 netos e 4 bisnetos. Em entrevista ao jornal Paraná Centro, a pioneira conta um pouco de sua vida em Pitanga.

Helena Tizott fala sobre sua vida em Pitanga

Helena Tizott fala sobre sua vida em Pitanga

Paraná Centro - A senhora lembra o motivo da mudança de seu pai para Pitanga?

Helena - Meu pai resolveu vir para Pitanga a troco de nada, não havia um motivo. Lá em Rebouças, ele plantava roça, tinha um sítio de 9 alqueires, onde ele plantava milho, feijão, batata, trigo, centeio, arroz e produzia de tudo. Mas estavam devastando o local e ele resolver mudar. Mas foi bom, pois com a venda do sítio lá, ele comprou 100 alqueires de terra aqui no Quarteirão Aparecida. As terras pertenciam a uma mulher chamada Constantina, mas não sei o sobrenome, e também não sei como meu pai ficou sabendo, mas quando ele chegou aqui, já comprou a propriedade.

Paraná Centro - Ele teve que derrubar mato nessa área?

Helena - Havia muito pinheiro; acho que meu pai vendeu mais de 3 mil árvores dessa terra, já que teve que abrir o local para o plantio. Ele primeiro veio comprar e depois trouxe a família.

Paraná Centro - Quais as lembranças que a senhora tem dessa viagem?

Helena - A viagem levou cerca de 15 dias, pois não tinha estrada, só carreirão, e eles eram muito ruins. Viemos de carroça até Pitanga, mas a viagem demorava muito, porque a criação veio tocada a pé de lá até aqui; meu pai trouxe muitos porcos. Eram cerca de 40 animais e três cavalos. Com a carroça, conseguimos chegar até aqui em Pitanga, mas para ir até o Quarteirão Aparecida, por vários trechos, meu pai teve que abrir picadas, por isso a viagem demorou tanto.

Paraná Centro - Havia locais de parada para dormir?

Helena - A gente dormia na carroça mesmo, já que ela era coberta com um toldo. Mas quando chegamos ao sítio, no Quarteirão Aparecida, ainda não tinha nenhuma casa e até meu pai construir, tivemos que dormir em um paiol velho. Nós éramos em dez irmãos e eu era a caçula. Na época, por exemplo, meu irmão mais velho tinha cerca de 20 anos, e meus irmãos ajudaram meu pai a derrubar as árvores para iniciar o plantio.

Pioneira posa com os filhos

Pioneira posa com os filhos

Paraná Centro - Qual foi o primeiro plantio que vocês fizeram nesta terra?

Helena - O primeiro plantio foi de milho, para fazer a safra de porco; mas meu pai tinha comprado uma roça antes para a engorda dos porcos que vieram com a gente e, no ano seguinte, começou a produção do milho para engordar os porcos. Toda a safra era vendida no Borboleta Abaixo, para um homem chamado Pedro Costa.

Paraná Centro - Seu pai também foi um dos primeiros produtores de vinho aqui de Pitanga?

Helena - Depois de um tempo, meu pai plantou um parreiral de uvas, que ocupava uma área grande ao redor da casa e era usada para a produção de vinho, que já era uma tradição da família, desde Rebouças. Aqui também fomos um dos primeiros a plantar uvas para fazer vinho. Ele usava duas variedades e, quando firmou a produção mesmo, cerca de três anos depois, ele produzia dez quintas de vinho, que equivalia a cerca de mil litros. Toda a produção era para a venda. Para a família, ele fazia uma mistura de água com vinho, que a gente chamava de pipo e gostava muito.

Paraná Centro - E onde ele comercializava esse vinho?

Helena - Esse vinho era vendido apenas aqui em Pitanga, e ele entregava em duas casas de comércio que tinha na cidade, que era do seu Maurício Grande e depois foi a vez do senhor Afonso Grande.

Paraná Centro - E como era a produção do vinho, os filhos ajudavam?

Helena - Sim, todos ajudavam. A produção começava no mês de janeiro, com a colheita. Meu pai fez um depósito grande para guardar as uvas e produzir o vinho e todos os filhos ajudavam.

Pais de Helena em foto da época

Pais de Helena em foto da época

Paraná Centro - E como era a vida no Quarteirão Aparecida?

Helena - Era de muito trabalho; só consegui estudar por dois anos, a escolinha funcionava junto à igreja. A minha primeira professora, por exemplo, foi a senhora Júlia H. de Souza, que hoje dá nome a uma escola da cidade. Além da uva, a gente plantava de tudo lá; fiquei no sítio até os 25 anos, quando nos mudamos para a cidade.

Paraná Centro - Qual o motivo da mudança para a cidade?

Helena - Quando completei 19 anos, eu me casei e morava junto com meu marido, Carlito Tizote, no sítio. Trabalhávamos no cultivo da roça, mas ele resolveu mudar, por loucura, pois naquela época, meu pai tinha comprado mais terras e tínhamos cerca de 200 alqueires. Ele começou a repartir entre os filhos e vendemos a nossa parte e resolvemos morar na cidade.

Paraná Centro - E aqui na cidade, o que vieram fazer?

Helena - Ele quis mudar, porque estava cansado de morar no meio do mato. Ele começou trabalhando como inspetor de polícia, mas não ganhava nada, as pessoas chamavam de “cagueta”. Meu pai também veio para a cidade, mas ele tinha bastante dinheiro, na época, e vivia do dinheiro emprestado a juros. Mas ele começou a não receber e, no fim, perdeu muito.

Em frente à igreja da época

Em frente à igreja da época

Paraná Centro - E a senhora veio para trabalhar em que?

Helena - Eu vim com trabalho arrumado, e trabalhava meio período como servente da Escola Antônio Dorigon, mas também prestava serviço como doméstica em algumas casas, três vezes por semana. Trabalhei para algumas pessoas, como o seu Hermut e o seu Otacílio, que foi prefeito e para quem trabalhei cinco anos; eu apenas cuidava da faxina e não precisava nem lavar roupa. Comecei a trabalhar no Colégio Antônio Dorigon em 1968.

Paraná Centro - Como era a cidade naquela época?

Helena - Aqui onde moro não havia nada, era apenas uma capoeira, havia poucas casas de comércio e um pequeno hotel, mas no interior havia muita gente. Eu trabalhei por 30 anos na escola e já faz 22 anos que estou aposentada, mas quando cheguei aqui em Pitanga tinha cerca de 20 casas. Mas Pitanga melhorou muito, pois naquela época, não tinha nada mesmo.

Paraná Centro - A senhora teve que ir para Guarapuava quando foi ter uma de suas filhas?

Helena - Quando fui ter uma das minhas filhas, tive que ir para Guarapuava, em cima de uma picape, pois aqui não tinha médico especializado em fazer cesariana e ela corria risco de nascer morta. Eles improvisaram uma maca, colocando um colchão na carroceria da caminhonete, e fui deitada até Guarapuava. O médico Dr. Orlando e uma enfermeira foram junto, mas, na época, ainda não tinha asfalto de Pitanga até lá. Acho que demorou cerca de meio dia para chegar a Guarapuava. Não tinha muita assistência médica aqui em Pitanga.

Carregamento de madeira

Carregamento de madeira