Pioneiro foi de delegado a dono de hotel em Pitanga

Rubens José da Silva nasceu no dia 15 de outubro de 1920, na cidade de Tijucas (SC), mas se criou na cidade de Lages e morou até 1959, quando se mudou para o Paraná. Viúvo, ele era casado com Nilce Antunes da Silva e teve sete filhos: Cirilo, Luiz Carlos, José Rubens, Margarete, Bernardete, Janete e Elisabete. Tem 14 netos e 16 bisnetos. Em Pitanga, o pioneiro desenvolveu uma série de atividades e foi proprietário de vários estabelecimentos comerciais. Em entrevista, ele conta um pouco de sua trajetória no município.

Rubens José da Silva

Rubens José da Silva

Paraná Centro - Como foi sua vinda para o Paraná?

Rubens da Silva - Vim para o Paraná no inverno de 1959. Em Santa Catarina, eu trabalhava na agricultura e tinha uma pequena casa de comércio, onde eu comercializava diversos produtos, que era chamado de secos e molhados; também compra de cereais. A lavoura que eu cultivada era milho, feijão e trigo, e tudo plantado na enxada. Aquela era uma época muito difícil.

Paraná Centro – Por que o senhor resolveu vir para o Paraná?

Rubens da Silva - Meu pai e meus irmãos vieram cerca de oito anos antes; vim passear e achei legal o lugar. Da minha família, fui o último a vir. Eles vieram porque buscavam uma vida melhor. Naquela época, meu irmão Amadeu trabalhava com a construção de casas e ganhou um bom dinheiro, e o meu outro irmão, o Pompílio, alugou aqui nessa esquina [cruzamento das Avenidas Interventor Manoel Ribas e Visconde de Guarapuava], um hotel que já existia, e os outros trabalhavam com lavoura. Meu pai veio já com idade avançada e não conseguia trabalhar mais. Primeiramente, eu fui para Curitiba, mas tive um desentendimento e acabei vindo para Pitanga.

Paraná Centro - Como foi a adaptação em Pitanga?

Rubens da Silva - Tive muito trabalho com essa mudança, pois eu morava em uma casa boa em Santa Catarina e, chegando aqui, não havia casa para alugar e, ainda por cima, era inverno e a geada era muito forte naquele período. Instalei-me em um rancho coberto de tábua e sem forro, lá na Santa Regina, e ficamos por lá por 60 dias. Na época, minha esposa reclamava muito do frio e demorou um pouco para fazer a minha casa e mudar para lá. Mas apesar dessas dificuldades, nunca pensei em voltar para Santa Catarina.

Paraná Centro - O senhor veio casado de Santa Catarina?

Rubens da Silva - Vim com cinco filhos e dois nasceram quando a gente morava na região onde hoje é Santa Regina. Minha esposa faleceu há 8 anos.

Paraná Centro - Qual foi a primeira atividade que o senhor desenvolveu em Pitanga?

Rubens da Silva - Aqui trabalhei como louco, lutava com o plantio de lavoura, compra de gado, trabalhei com açougue, que era aqui próximo, onde fica atualmente o Hospital São Vicente de Paulo. Na época, eu arrendei de um senhor chamado Mendes e depois eu comprei uma propriedade, onde hoje fica um consultório de odontologia, ali era meu açougue. Mas era uma dificuldade muito grande trabalhar com gado, não havia muitas criações com animais prontos para abate. Tinha que comprar gado em Palmital e levava cerca de 4 a 5 dias para trazer. A gente ia a cavalo e comprava os animais nas fazendas do interior e os trazia de lá até o frigorífico, que ficava em uma propriedade que eu aluguei, nos fundos do antigo hospital.

Paraná Centro - E como eram feitas essas viagens para buscar os animais?

Rubens da Silva - Naquela época poucas eram as estradas e a maior parte da viagem era feita por picadas no meio do mato. Eu trabalhava demais, tinha que forrar com os pelegos e dormir no chão, comíamos muito mal, viajávamos o dia todo com uma capa nas costas, tomando chuva, era uma verdadeira vida de tropeiro. Depois vendi o açougue.

Paraná Centro - Mas essas viagens eram constantes?

Rubens da Silva - Apenas quando ia comprar gado. Conheço quase todos os locais de Palmital e a quantidade de gado que a gente trazia, dependia da demanda; às vezes trazia 15 ou 12. Não compensava comprar um número muito grande, pois quando trazia para cá, o gado emagrecia. O primeiro lugar onde montei um matador era um terreno alugado de 10 alqueires, por 90 mil réis, onde hoje é o Mercado Santa Regina. Mas para colocar o gado depois, aluguei um terreno do senhor Frederico Repula, que tinha uma “invernada” de 12 alqueires, que ficava onde hoje é o Hospital, mas ele era uma pessoa muito boa e quase não me cobrava nada. Ali eu fiz o matador e guardava o gado. Na época, não tinha ponte e para vir para o lado de cá, tinha que passar em cima de uma prancha, que ficava sobre o rio e vinha a pé para o açougue. Mas logo parei com essa atividade, porque tinha muito trabalho e pouco lucro. Eu decidi retornar um período para Santa Catarina e comprei uma data em Guarapuava, mas não deu certo. Depois disso, peguei esse terreno em Guarapuava e troquei por 10 alqueires de terra na entrada da Barra Bonita e, com mais um dinheiro que eu tinha, porque também trabalhei com um bar, consegui comprar o hotel que era do meu irmão.

Nilce Antunes (in memorian) e Rubens da Silva

Nilce Antunes (in memorian) e Rubens da Silva

Paraná Centro - Como o senhor comprou esse bar?

Rubens da Silva - O antigo proprietário do bar, que ficava em frente ao cinema, me propôs o negócio e eu aceitei. Eu mudei o bar, coloquei outras coisas, como uma sorveteria. Ele me cedeu toda a madeira e construí o bar no terreno dele. Mas eu nunca gostei de bar, acabei indo para esse negócio obrigado, porque eu sempre fui de trabalhar. Nisso, eu propus à minha esposa que vendêssemos a pastagem e o bar para comprar uma propriedade de 72 alqueires, na localidade de Pitanga Abaixo, onde fica a usina do Podolan. Lá eu fiz safra de porco, que eu vendia aqui mesmo em Pitanga, e os fornecedores levavam para Ponta Grossa. Tive muita sorte com a criação dos porcos, era um terreno grande e muito bom para o plantio, havia 30 alqueires de mata virgem. No primeiro ano, fiz 20 alqueires de roça e minha esposa ficava cuidando do hotel, que eu ainda tinha. Ela e mais um guarda cuidavam do hotel e eu ia para o interior, pois só com o hotel não daria para ter renda suficiente para viver; e essa foi a minha sorte. Naquela época, plantava o feijão no meio do milho, não havia adubo. A colheita era feita à mão e consegui um preço muito bom na saca do feijão e isso ajudou a endireitar a vida. No ano seguinte, consegui fazer 24 alqueires de roça e vendi quase 2 mil sacos de milho. Havia feito uma promessa à minha esposa que, em dois anos, iria comprar todas as propriedades que eram do seu Domingos, que era dono do hotel e do bar, que a gente tinha. Eu sempre foi um homem de muita fé em Deus. Em 1972, eu vendi essa propriedade para um homem de Londrina e, com o dinheiro, comprei o restante das propriedades que existiam ao lado do hotel.

Paraná Centro - Como foi a compra do hotel?

Rubens da Silva - Com o dinheiro em mãos, fui falar com o seu Domingos, que era o dono do hotel, que até então era alugado. Na época, ele queria 40 mil réis e eu disse a ele que tinha achado meio caro, mas como confiava nele, disse que até pagava adiantado e depois receberia a escritura. E consegui comprar e, na época, já se chamava Hotel Central. No entanto, antes de me vender, ele recebeu a visita de duas pessoas que o procuraram para comprar o hotel, com o objetivo de me prejudicar. Mas como ele já sabia que eu queria comprar, não aceitou negociar com essas outras pessoas, e só vendia para mim. Fiquei sabendo dessa história pelo meu genro e foi quando procurei o senhor Domingos para negociar o hotel. Quando eu estava no meio do mato, passando dificuldade, ficava cerca de 60 dias morando por lá direto, porque a vontade de comprar isso aqui era muito grande.

Paraná Centro - Mas o senhor também trabalhou como delegado aqui, como foi isso?

Rubens da Silva - Em 1964 eu fui nomeado delegado, mas essa era uma profissão muito ruim. Ela é boa para o delegado que sabe viver. Naquela época, havia aqui um hotel velho de madeira e um cara, de mais ou menos uns 25 anos, veio aqui e deu dois tiros no meu hotel e dois tiros na farmácia. Havia um policial militar, chamado tenente Demerval, e depois de várias horas do ocorrido, esse policial não havia tomado nenhuma providência. Eu resolvi fazer alguma coisa. Fiquei sabendo que o cara que havia atirado no hotel e na farmácia estava em um outro hotel velho, que era chamado de Boca Maldita. Fui até lá e expliquei ao dono a situação e pedi para ir até o quarto onde estava o rapaz suspeito de ter dado os tiros. Bati na porta do quarto e quando o rapaz saiu para me atender, eu mostrei um revólver 38 para ele e disse que tinha ido buscá-lo para levá-lo até a Polícia. Levei-o a pé do hotel até a delegacia. Mostrei o homem para o tenente e disse que, como ele não havia tomado nenhuma providência, a população me colocou como delegado.

Paraná Centro - Quais foram as dificuldades como delegado na época?

Rubens da Silva - Eu não tinha prática, não conhecia certinho as leis. Na verdade, eu fui para dar uma mão, mas aqui era uma bagunça, a polícia era corrupta, ficava tomando dinheiro das pessoas. Teve um episódio, em que a polícia prendeu um homem de Boa Ventura do São Roque na “casa de tolerância”. Quando eles chegaram à delegacia, chamei o rapaz que estava preso e ele me contou que estava tomando uma cerveja e os policiais o prenderam, e ele foi levado até a delegacia por um carro de praça (táxi), que cobrou 20 cruzeiros, e os policiais cobraram mais 4 sacos de milho. Chamei o dono do carro de praça e disse para devolver 15 cruzeiros para o homem, porque o preço era de apenas 5 para aquele tipo de corrida; e disse a ele que não desse nada para os policiais. Mas disse ao cidadão que fosse para a casa, mas que no outro dia viesse à cidade, pois a família dele estava no sítio esperando a compra, e que se ele fosse tomar cerveja naquele lugar de novo, eu mesmo iria tomar as providências, porque nem santo o iria acudir. Mas eu não aguentei aquela pressão e acabei saindo da função.

Paraná Centro - Como o senhor avalia o desenvolvimento de Pitanga?

Rubens da Silva – Pitanga, naquele tempo, era muito pequena, tinha pouco mais de meia dúzia de casas, mas eu tinha fé que iria crescer, pois o município era grande, tinha uma boa produtividade e que iria se desenvolver, como aconteceu. Eu sempre me pautei muito pelo trabalho e pela honestidade e acho que, por isso, também conquistei tudo o que havia para conquistar.