Escolhas

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Cresci numa pequena cidade bem próxima de Savannah, na Georgia, onde ninguém fechava as portas à chave durante a noite e a maior diversão era a noitada de futebol na escola secundária todas as sextas-feiras. O único crime de que se falava era a ocasional multa por excesso de velocidade e talvez, muito de vez em quando, estourasse uma briga ao sábado à noite no único bar da cidade. É uma cidade pequena e sossegada, onde os pais querem criar os filhos longe do crime e dos perigos de uma cidade grande, e onde os adolescentes sonham em partir à procura de algo maior e melhor.

Tudo isso mudou para mim numa noite quente de verão, em julho.

Era o dia dos meus dezoito anos. Os pais de Lisa, a minha melhor amiga, iam estar fora da cidade por uma semana, portanto Lisa e as outras duas minhas melhores amigas, Kim e Jewel, decidiram oferecer-me uma festa na casa dela. Os meus pais julgavam que eu ia jantar fora com Tyler, o meu namorado, e depois seguiria para casa de Kim para passar o resto do fim de semana. Tyler veio buscar-me às seis. Os meus pais diziam-lhe sempre o mesmo: “Dirija com cuidado. Você leva no lugar do passageiro uma carga preciosa.” A minha mãe abraçava-nos e acompanhava-nos até à porta.

Quando Tyler e eu chegamos à casa de Lisa, a festa já estava acontecendo, e a casa estava lotada. Sempre tínhamos gostado de ir a festas e de passar algum tempo com os nossos amigos, embora nenhum de nós bebesse álcool ou usasse drogas. No entanto, alguns dias antes, eu e Tyler tínhamos decidido levar algumas bebidas para a festa. Assim que Kim e Jewel descobriram que eu estava bebendo, quiseram fazer o mesmo. Ao fim de cerca de três margaritas e outras bebidas que as pessoas estavam constantemente a me passar, eu já estava muito embriagada. Saí então à procura de Tyler.

Quando o encontrei, já estava me sentindo bastante mal disposta e só queria ir para casa. Mas havia um problema, Tyler estava tão embriagado como eu, se não mais ainda. Quando lhe disse que tinha de ir embora porque não estava me sentindo bem, ele disse que estava ótimo e me levaria para casa. Mesmo tão embriagada como estava, eu deveria saber, nós deveríamos saber avaliar bem as consequências de beber e conduzir. Mas, naquele momento, nada disso me interessava – só pensava em ir para casa. Foi com muita dificuldade que conseguimos chegar ao carro. Não me lembro de ter chegado em casa. Só recordo que meus pais correram até nós de pijama e que pareciam assustados. A minha mãe ajudou-me a ir até à cama e o meu pai deitou Tyler no sofá. Naquela noite, depois de vomitar as entranhas, adormeci finalmente e tive um pesadelo: é de manhã cedo, acordo com os meus pais chorando. Kim, minha amiga desde os cinco anos de idade, tinha morrido num acidente de carro. Depois de Tyler e eu sairmos, Kim, que tinha bebido ainda mais do que eu, meteu-se no seu carro. Não colocou o cinto de segurança, não ligou as luzes e dirigiu-se para a estrada, de regresso à casa. Ia a cerca de 150 quilômetros por hora e conduzia pela faixa errada. Kim nunca chegou a ver o caminhão se aproximar. O condutor, que também não usava cinto de segurança, não a viu a tempo de conseguir desviar. Chocaram de frente. Kim teve morte imediata, e o condutor foi projetado pelo para-brisa do caminhão e ficou em coma.

Acordei já ao final da tarde, a gritar o nome de Kim, com suores frios e as lágrimas correndo pelo meu rosto. A minha mãe voou para o meu quarto e abraçou-me, até que parei de chorar.

Já se passaram onze anos desde aquela noite, e nunca mais toquei em álcool. Todos os anos, na época do meu aniversário, tenho aquele pesadelo. Vejo os meus pais chorarem enquanto se dirigem ao meu quarto para me dizer o que aconteceu com a Kim. A única diferença é que, agora, a minha mãe já não está lá para me abraçar até que as lágrimas parem e para me dizer que é apenas um pesadelo e não o álcool a confundir o meu cérebro. Porque Kim chocou realmente contra aquele caminhão. Soube mais tarde que o condutor se chamava David e que esteve em coma durante uma semana, antes de morrer. Deixou um filho de três anos e uma esposa grávida de sete meses de uma menina.

Sempre que revejo aquele dia, pergunto-me se a minha amiga teria bebido se eu não o tivesse feito. Pergunto-me se ela teria conduzido até casa se não me tivesse visto fazê-lo primeiro. O que teria acontecido se eu não tivesse bebido naquela noite? Será que Kim ainda estaria viva? E David? Sei que Kim, naquela noite, escolheu beber e conduzir, mas uma parte de mim sente-se responsável pelo que aconteceu.

Poderei não mudar o mundo com a minha história, mas espero sinceramente que, ao partilhá-la, faça as pessoas compreender a responsabilidade que têm para consigo próprias e para com todos os outros. Não pensem jamais que as vossas escolhas são apenas vossas. Cada escolha, boa ou má, é como um seixo atirado para águas calmas. Cada ondulação representa alguém que a nossa escolha afeta. E tem a força de um impacto.

Autora desconhecida

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