Pioneiro trabalhou com a primeira motoniveladora de Pitanga

José Augustinho Bassani é natural de Pitanga e nasceu em 23 de setembro de 1937. Filho dos pioneiros João Batista Bassani e Maria Romana Trizotti, ele foi casado com Ivone Kloster Bassani (falecida em 2002), com quem teve 7 filhos: João Augustinho, Sérgio Vanderlei, José Agnaldo, Teodoro, Maria Lúcia, Maria Iolanda e Maria Estela; tem 13 netos e 8 bisnetos. Em entrevista, ele conta como aprendeu o ofício de operador de motoniveladora e foi chefe do Departamento Rodoviário de Pitanga.

José Bassani é natural de Pitanga

José Bassani é natural de Pitanga

Paraná Centro - De onde sua família veio?

José - Meu avô João Tizotti é imigrante italiano e veio pelo do Porto de Paranaguá, quando tinha 10 anos. Minha avó veio casada da Itália, mas o marido dela foi jogado no mar, pois ele pegou “bexiga preta”, hoje conhecida como febre amarela. Eles vieram até o Rio dos Patos, município de Prudentópolis.

Paraná Centro - Como seus pais chegaram a Pitanga?

José - Em Prudentópolis, meus pais formaram família e vieram desbravando as terras. Eu nasci na localidade do Rio Batista, que fica a 7 quilômetros da sede de Pitanga; naquela época trabalhavam com agricultura e venda de madeira.

Paraná Centro - Quais as primeiras lembranças que o senhor tem da infância?

José - Lembro que fiquei no Rio Batista morando com uma irmã minha, que era professora, para poder estudar. Nessa época, veio uma comissão de Guarapuava, abrindo estrada até Pitanga. Meu cunhado, chamado Acir Nunes Ferreira, era quem operava a motoniveladora. Nessa época, eu tinha de 12 para 13 anos, e ficava com meus tios, na comunidade de Quarteirão Aparecida. O pai do Cleon Costa, que era prefeito na época, e o governador Bento Munhoz da Rocha conseguiram a doação de uma patrola para a prefeitura de Pitanga e o meu cunhado pediu que eu fosse contratado como ajudante e fomos até a cidade de Faxinal para buscar o maquinário.

Paraná Centro - Naquela época Pitanga tinha alguma patrola?

José – Não, essa foi a primeira patrola que Pitanga adquiriu, porque o prefeito anterior era representante da ditadura. O primeiro prefeito foi o Nicolau Schon, que é meu parente distante e o segundo prefeito foi o Dr. Orlando, que era médico e pai do Cleon. Ele pediu para meu cunhado buscar a patrola lá em Faxinal. Era uma Caterpillar importada. Quando chegamos naquela cidade, estavam uns 200 homens para não entregar a patrola. O Dr. Orlando pediu para o tenente Ezio nos acompanhar. Ele estava com um ofício do governador Bento Munhoz da Rocha e, quando o tenente leu o ofício do governador, o povo se afastou e conseguimos trazer a patrola; na viagem, quase afundamos com ela no Rio Ivaí. Demoramos um dia e meio, pois a estrada na época era muito ruim, parecia um carreador.

Paraná Centro - Qual a primeira estrada que vocês arrumaram com essa máquina?

José - O primeiro trabalho que fizemos com essa motoniveladora foi terminar a estrada que vinha de Guarapuava a Pitanga. O serviço feito pelo Governo chegou até perto do Rio Batista e, com a patrola nova, conseguimos abrir a estrada até Pitanga. Meu cunhado conduzia a máquina e eu ajudava a engraxar os rolamentos, colocava óleo e ajudava a tirar a madeira da estrada, jogando pedras para ajudar a rolar a máquina. Essa estrada, antes, mal passava um caminhão e chegava atrás do cemitério municipal. Depois de um tempo, a prefeitura comprou um trator de esteira e isso nos ajudou a avançar mais com a estrada. Eu aprendi a lidar com essas máquinas e, a partir, daí o serviço começou andar com mais velocidade. Uma das formas para abrir as estradas era contar com a ajuda da comunidade. Eles chamavam de “aviação”. O inspetor municipal da localidade requisitava as pessoas, que tinham que trabalhar cinco dias, no ano, para ajudar abrir as estradas e depois recebiam um cartão, que confirmava que o serviço foi cumprido. Com o povo ajudando, conseguimos avançar pelo interior. Ainda naquela época, os presos eram colocados para ajudar a abrir as estradas e uma delas, por exemplo, é a estrada que vai até a Água da Limeira. Mas nós também trabalhamos muito para abrir as ruas e os carreadores dos lavradores, que tinham produção para escoar.

Paraná Centro - Como conseguiu ser dispensado do serviço militar naquela época?

José - Eu me alistei e fui servir em Guaíra (PR), mas naquele tempo era muito difícil encontrar pessoas que soubessem operar motoniveladora. O prefeito da época foi comigo até Ponta Grossa e, de lá, fomos de avião até Guaíra, para que ele tentasse a minha dispensa do serviço militar. Ele mandou um ofício para o chefe do Exército, pedindo a minha dispensa e, depois de um mês, consegui voltar. Outros 29 companheiros que foram comigo daqui de Pitanga tiveram que cumprir o serviço militar obrigatório.

Paraná Centro - Quais as dificuldades da época?

José - As máquinas eram fracas e tinha pouca gente para trabalhar. Nessa época, Palmital foi elevado a município e ajudamos a abrir a estrada até lá. Na outra vez que fomos para lá, eu fui até Laranjal e, com a ajuda de 26 homens, que usavam picareta e motosserra, abrimos a estrada até aquela cidade. Ainda em Palmital, fizemos uma terraplanagem para a construção de uma escola e uma pista para corridas de cavalo. Na volta para cá, fui para Nova Tebas, onde um homem tinha feito as ruas antes, mas fomos lá para terminar o serviço. Depois fui para Santa Maria do Oeste, Boa Ventura do São Roque e Mato Rico. Durante o ano, íamos para esses lugares, arrumando a estrada principal e as ruas locais.

Paraná Centro - Como vocês cortavam a estrada, como definiam o traçado ou superavam os obstáculos?

José - Não tinha engenheiro, então cortávamos a estrada do jeito que era mais fácil. Nós mesmos fazíamos esse trabalho. Uma das estradas mais difíceis foi a da Vila Nova dos Alemães até a Barra Santa Salete; lá tem uma serra e, para conseguir abrir a estrada, contamos com a ajuda de 60 homens que, além de cortar as árvores e abrir a estrada com picaretas e pás, ainda levavam comida para a gente.

Paraná Centro - O senhor sofreu algum acidente durante esse trabalho ou teve alguma dificuldade maior?

José - Acidente não, mas tive um período difícil, quando houve a troca de prefeitos. Uma vez, nos levaram para o meio do mato para fazer uns serviços na área rural e nos deixaram lá, só com o combustível. Não se preocuparam se a gente tinha filhos ou não. Uma vez, quando voltei do meio do mato, uma filha minha já tinha até sido batizada. Numa dessas épocas, cheguei a ficar 17 dias no mato, em que chegava a acabar a comida e o chefe das máquinas só ficava puxando o saco do prefeito.

Paraná Centro - O senhor trabalhou como maquinista com 9 prefeitos diferentes?

José - Sim, não direto com todos, mas trabalhei em 9 gestões diferentes. É que também trabalhei emprestado, uma época, para Palmital, treinando o pessoal de lá com as máquinas e também comprei um caminhão para puxar porco para São Paulo, Ponta Grossa, Minas Gerais; trabalhei por lá um ano e depois voltei. Quando o Dico Petrechen assumiu novamente, ele me chamou para trabalhar em Pitanga. Depois voltei a trabalhar na Prefeitura de Palmital. Na época do Neri Cochemba, eu voltei como chefe do pátio de máquinas. Trabalhei 25 anos, quando me aposentei como motorista e depois ainda fiquei trabalhando. Posso dizer que conheço todas as estradas que existem em Pitanga e, pelo menos, uma vez eu arrumei alguma delas.

Paraná Centro – Como se sente, sabendo que muitas dessas estradas são usadas até hoje pela população?

José - Muitas pessoas me procuram, até hoje, para dizer que, naquela época, com poucos maquinários e pouca gente, eram bem mais atendidos do que hoje em dia. Hoje, os gestores têm máquinas novas, mas o serviço não rende. Os agricultores vivem se queixando.

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