Pioneiro Nagibe Lima descreve sua vida em Pitanga, de padeiro a motorista de ônibus

O pioneiro Nagib Mendes de Lima é natural de Pitanga e nasceu na comunidade de Rio do Meio. Filho dos pioneiros Herculano Medes de Lima e Graciolina Taborda Ribas, ele é casado com Idazima Alves de Lima, com quem teve quatro filhos: Vera Lúcia, Paulo Sérgio, Luciane e Nagib Filho; tem 7 netos e 1 bisneto. Em entrevista ao jornal Paraná Centro, ele conta a trajetória de vida e como sua família foi desbravadora da comunidade rural de Rio do Meio.

Nagibe de Lima nasceu em Pitanga

Nagibe de Lima nasceu em Pitanga

Paraná Centro - Como foi a vinda da sua família para Pitanga?

Nagibe Lima - Meu pai veio de Irati, da localidade de Rio do Couro, e minha mãe era natural de Ivaí Calmon. Eles se conheceram e casaram aqui em Pitanga. Minha mãe chegou a Pitanga em 1925, quando ela tinha 12 anos de idade, e seus pais se estabeleceram na comunidade de Faxinal Miranda. Lá montaram um acampamento e começaram a abrir picada para passar os cargueiros, porque a mata era muito fechada. Foram até a localidade, onde hoje fica o Rio do Meio, e fizeram uma clareira, derrubaram alguns pinheiros para construir um rancho. A minha mãe foi uma das pessoas que abriu a comunidade do Rio do Meio. O meu avô se apossou desse local, com cerca de 2 mil alqueires de terra. Naquela época, o pedido de documento da terra era feito em Guarapuava, e ele fez uma viagem a cavalo por Prudentópolis. Ele deu a metade da terra para outro sujeito, que era mais esperto, que já conhecia a região. Esse homem, João Machado, vendeu o terreno para a família Hank, que era do Rio do Meio.

Paraná Centro - E seu pai como veio para Pitanga?

Nagibe Lima - Meu pai é nascido em 1909, mas não sei em que ano ele veio para Pitanga. Ele também foi para a localidade do Rio do Meio, onde ele conheceu minha mãe. Meus avós, por parte de pai, vieram para fazer roça e foi ali que se conheceram. Somos em 8 irmãos e, entre os homens, sou o do meio. Meu irmão mais velho é hoje o morador mais antigo do Rio do Meio e se chama Antenor Mendes de Lima, mas ele anda meio adoentado, mas ainda está bem lúcido e gosta de contar as histórias antigas. Ele sabe, por exemplo, quem são as primeiras pessoas da comunidade, o primeiro professor e quem foi o primeiro a ser sepultado no cemitério de lá.

Paraná Centro - Qual lembrança o senhor tem de sua infância na comunidade do Rio do Meio?

Nagibe Lima - As colheitas da roça que fazíamos com os pais. Aos 8 anos já era carroceiro e ajudava a puxar a produção. Eles enchiam a carroça e eu, mesmo pequeno, trazia a carroça de milho para a casa e voltava buscar outra carga. Eles usavam esse milho para alimentar os bois, como não tinha outro transporte, esses animais eram usados para puxar os carroções. Lembro também do meu avô fazendo o trabalho de abertura da mata. Ele derrubava os pinheiros, abria as picadas para os caminhões entrarem e retirarem a madeira. Na época, já havia muitas pessoas ocupando o terreno dele; ele ia abrindo os sítios para que as pessoas fossem entrando. Outra lembrança é que a gente fazia safra de porcos, que era vendida em Ponta Grossa. E havia muita onça ainda nas matas, que era um problema, pois atacava os porcos. Meu pai, uma vez, foi até Prudentópolis e trouxe um caçador, que matou 14 onças naquela região do Rio do Meio, para poder começar a produzir alguma coisa, pois os bichos comiam a criação. Outra lembrança que tenho, quando eu tinha nove anos, eu vinha a cavalo do Rio do Meio até Pitanga para comprar remédios para a minha mãe, que estava grávida. Éramos fregueses da Farmácia do seu Francisco Costa, avô do Cleon Costa. Mas num desses dias, cheguei e a farmácia estava toda cravejada de bala, com as vidraças quebradas, mas como eu era muito inocente e pequeno, não tinha entendido o que estava acontecendo. Meu pai me dava um bilhete para eu mostrar para o farmacêutico, que vendia o remédio. Quando estava na farmácia me contaram que tinha ocorrido um tiroteio na casa do avô do Cleon. Eu voltei embora com medo dos bandidos. Como era 11 quilômetros, a gente demorava cerca de uma hora para fazer o trajeto.

Idazima e Nagibe Lima

Idazima e Nagibe Lima

Paraná Centro - O senhor conseguiu estudar lá no Rio do Meio, já havia escola por lá?

Nagibe Lima - Já tinha escola, mas a sala era multisseriada; eu estudei até o 3º ano apenas e depois vim para a cidade, aos 13 anos, onde terminei o primário. Quase toda a família veio, mas meu pai continuou lidando com a roça lá no Rio do Meio. Ele alugou uma casa na cidade e minha mãe se mudou, para facilitar que minhas irmãs menores pudessem ir para a escola. Meu pai continuou trabalhando lá e, no final de semana, vinha para a casa.

Paraná Centro - E o que havia aqui em Pitanga nessa época?

Nagibe Lima - Poucas coisas, algumas serrarias, a Serraria Michalak, onde viemos morar na época. Pouco abaixo tinha uma fábrica de farinha de milho, próximo à entrada onde hoje é o Conjunto São Basílio; do lado direito havia um morador chamado Nicolau Urich. A entrada para a Vila Nova era uma área coberta de pinheiro.

Paraná Centro – Já na cidade, o senhor foi trabalhar?

Nagibe Lima -Comecei a trabalhar na padaria do senhor Manoel Pereira Fernandes, o Manuelito, em 1959. Todos os dias eu levantava às 4h00 da manhã para ir ao trabalho e só tinha folga no domingo. Ele me ensinou o ofício do padeiro. Meu pai não deixava a gente ficar parado, tinha que fazer alguma coisa; eu saía de manhã e trabalhava até o meio dia e depois ia para a escola. Meu pai trabalhava lá no sítio e queria que a gente trabalhasse aqui na cidade. Trabalhei 19 anos na Padaria Santana. A padaria ficava em frente onde hoje é a Escola Tiradentes.

Paraná Centro - O que produzia na padaria naquela época?

Nagieb Lima - Pão d’água, pão francês, pão bengala, biscoito, bolacha margarida. Trabalhei com seu Manoel dos 13 anos até os meus 19 anos. Saí para servir o Exército em Guarapuava, no Esquadrão da Cavalaria. Depois que concluí o serviço militar, meu pai faleceu e eu voltei para o Rio do Meio, pois minha mãe tinha uns irmãos menores; ela vendeu a casa na cidade e voltou a morar no sítio. Voltei e trabalhei um pouco com ela. Depois disso, seu Manoel pediu para eu voltar a trabalhar com ele. Na época eu estava com 21 anos e voltei a ser padeiro.

Foto antiga mostra a casa na comunidade de Rio do Meio

Foto antiga mostra a casa na comunidade de Rio do Meio

Paraná Centro - Como o senhor conheceu sua esposa?

Nagibe Lima - Eu conheci em Pitanga, no tempo que eu entregava pão e ela trabalhava em uma casa de família. Depois que a conheci, ainda fui para o Exército e ela ficou me esperando. Depois nos casamos.

Paraná Centro – Além da padaria, quais outras atividades que o senhor fez?

Nagibe Lima -Trabalhei na padaria até 1980, depois saí e fui trabalhar no Supermercado Regina, como motorista e entregador de compras. Saindo de lá fui para a empresa que constrói asfalto, onde trabalhei mais quatro anos (DM Construtora de Obras) e meu último trabalho, quando me aposentei, foi pela Expresso Nordeste, como motorista de ônibus.

Paraná Centro - Como era a rotina de acordar todos os dias de madrugada para trabalhar na padaria?

Nagibe Lima - Muito desgastante. Nesse horário, eu trabalhei mais ou menos uns 8 anos; levantava de madrugada e vinha para o trabalho. Algumas vezes eu não sabia bem a hora e acabava chegando adiantado. Ligava o rádio e ouvia uma estação que era chamada de “Rádio Relógio”, que ficava falando a hora de minuto em minuto; era uma rádio do Rio de Janeiro e, quando saía do ar, eu ia sem saber a hora certa. O senhor Manoel levantava às 2h00 da manhã para por fogo no forno, pois a lenha ficava lá dentro. Uma vez, ele me viu lá dentro e perguntou o que tinha acontecido e eu disse que não tinha relógio e pensei que estava na hora. A massa era feita no começo da noite do dia anterior e ficava descansando em um vasilhame alto de madeira. Naquela época, as quedas de energia eram constantes, pois era gerada pela prefeitura e eu tinha que sovar em um cilindro de madeira muito grande. Eu subia em um banco para poder alcançar e fazer o pão. Além de fazer o pão, a gente saía vender em uma charrete. Quando estava amanhecendo o dia, ia até uma propriedade buscar os cavalos. O problema que não tinha iluminação e era tudo muito escuro, e não tinha como pegar os animais. Eu e mais dois meninos fazíamos a venda na área rural e na cidade.

Paraná Centro - O que representa a cidade de Pitanga para o senhor?

Nagibe Lima - Uma cidade boa e um lugar com boas recordações; sempre fomos amigos das pessoas e continuamos sendo. A cidade se desenvolveu foi muito.

Nagibe serviu o exército antes de se casar

Nagibe serviu o exército antes de se casar

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