Pioneiro ajudou a construir a primeira usina e o cinema em Ivaiporã

Jair Aniceto

Jair Aniceto

Jair Aniceto da Silva é nascido em Lavras (MG), em 20 de maio 1946. Casado com Roseli Pereira tem cinco filhos: Marcos Cristiano, Jair Aniceto da Silva Júnior, Fábio Luiz, Fabiana e Anderson, e dois netos. Ele se mudou com os pais Alcino Aniceto da Silva e Leontina Costa da Silva para Ivaiporã em 1958, quando o pai foi convidado pela Companhia Ubá para ajudar na construção da primeira usina hidrelétrica de Ivaiporã.

Paraná Centro - Como foi a vinda do senhor para Ivaiporã?

Jair Silva - Nós morávamos entre Cornélio Procópio e Sertaneja e meu pai sempre foi construtor e, naquela época, o Sr. Leovigildo Barbosa estava loteando aquela região, como fez aqui em Ivaiporã. Ele descobriu meu pai, em Sertaneja, e o convidou para que ele viesse construir a usina de energia, que tem próximo ao Jardim Guanabara I. Meu pai veio para montar essa usina e a nossa primeira moradia foi na casa que tinha naquele local. E ele veio montar a turbina, porque a energia até então era gerada por meio de motor; e essa foi a primeira usina de Ivaiporã. Isso era 1961 e, além da usina, ele também construiu o cinema para a Companhia Ubá. Primeiro ele veio conhecer a cidade e um mês depois ele foi nos buscar. Saímos de Sertaneja em 1958.

Paraná Centro - Na época era uma inovação essa usina hidrelétrica?

Jair Silva - Sim, porque não era com roda d´água. Foi construída uma represa e uma espécie de caracol, por onde entrava a água. Ela passava por dentro desse caracol e seguia até a turbina, que acionava um gerador com cerca de um metro de altura. Era para fornecer a energia para a Companhia Ubá e para a Rua Santa Catarina e, aos poucos, isso foi aumentado. Nessa época, eu tinha 12 anos, e meses depois ele comprou um caminhão. E aí, eu, já com 13 anos, dirigia este caminhão, dentro de Ivaiporã; puxava material de construção da Comercial Ivaiporã para as obras do meu pai e trabalhava junto com ele, também ia buscar areia no porto no Rio Ivaí, próximo a Fazenda Rio do Peixe. Imagina como era a estrada há 60 anos. Era praticamente um dia de viagem para buscar um caminhão de areia. Na época, praticamente não tinha estrada, era só mato.

Paraná Centro - Qual a primeira obra o senhor ajudou seu pai a construir aqui em Ivaiporã?

Jair Silva - Foi a usina, apesar de ser menino ainda, a gente tinha que trabalhar para ajudar. Essa obra demorou cerca de um ano para ficar pronta. Pois ela era feita com pedra e cimento, não tinha concreto e tijolo. Meu pai também ajudou na construção do colégio das irmãs e da igreja que havia queimado. Na época, era o padre da Bom Jesus, chamado Ives Guéguem, que criou uma amizade com meu pai. A construção foi feita com a doação para a construção do colégio das Irmãs, da faculdade e da igreja Bom Jesus.

Banda Jr durante apresentação em Ivaiporã na década de 70

Banda Jr durante apresentação em Ivaiporã na década de 70

Paraná Centro - A Companhia Ubá construiu o cinema como forma de oferecer diversão para a população que chegava à cidade?

Jair Silva – O cinema era o principal local de diversão da cidade. Eles trouxeram um alemão, que se chamava Brezzer, que foi o primeiro que tomou conta do cinema; eu também trabalhei um pouco no cinema, quando era adolescente. Na época, Ivaiporã tinha quase 70 mil habitantes, pois era formada, em grande parte, por sítios pequenos, já que Arapuã e Ariranha do Ivaí pertenciam a Ivaiporã e todo mundo vinha para cá. Tinha três sessões por final de semana e sempre lotadas e a praça em frente ao cinema ficava cheia de gente também. Tinha muito movimento.

Eu comecei ajudando no cinema, enrolando os filmes e quando passava um rolo, enrolava outro, até que chegou a máquina de 16 milímetros, era mais moderna. Naquela época, tinha até um táxi-aéreo em Ivaiporã, o nome da empresa era Ivaiporã Táxi Aéreo, que era um investidor de Londrina; as estradas eram de barro e os caras que tinham dinheiro iam de avião para Maringá ou Londrina; a empresa ficava do lado do cinema. E ele tinha viagens praticamente todos os dias. Ivaiporã naquela época tinha muito movimento.

Paraná Centro - Até quantos anos o senhor trabalhou no cinema?

Jair Silva - Eu trabalhava com meu pai durante o dia e, à noite no cinema. Acho que fiquei uns 4 anos. Meu pai faleceu em 1990. Cheguei a ir para Guarapuava para servir o Exército, mas fui dispensado por excesso de contingente. Depois de um tempo, comecei a levar porcos para Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Passados alguns anos, comecei a trabalhar com o ex-prefeito Pedro Papin, na Papin Turismo; era apenas eu e ele e fazíamos excursão para Aparecida do Norte. Na época, a outra empresa que tinha em Ivaiporã era a Guarujá Tur, que era do Pedro Passarinho. E, toda semana, a gente ia para Aparecida do Norte. Quando Furnas veio para cá, o Papin arrumou um ônibus para puxar a administração, isso em 1979 e 1980. Foi aumentando o número de pessoas para transportar, e chegou a ter cerca de mil pessoas e o Pedro Papin teve que comprar 10 ônibus para atender o pessoal para trabalhar na obra. Levávamos pessoas de Manoel Ribas, Ivaiporã, Lunardelli e Jardim Alegre para trabalhar na obra. Eu e o Pedro Anacleto fomos os primeiros funcionários da Nativa e de Furnas. A vinda de Furnas para Ivaiporã fez com que a cidade crescesse muito, pois não tinha mais nada, além da agricultura. Ivaiporã chegou a ser a capital do milho e isso acabou. Quando estavam terminando a construção, me ofereceram um emprego em Furnas e aceitei, porque o salário era o dobro de quando eu trabalhava com o Papin. Mas sou amigo do Papin desde moleque.

Construção Igreja Bom Jesus

Construção Igreja Bom Jesus

Paraná Centro – Você tinha uma banda?

Jair Silva - Tínhamos a banda Apollus Company, que depois virou a Banda Apollus Band, que era de Apucarana; aqui em Ivaiporã era a Banda JR, e o Jair Super Cap em Jacarezinho e Santo Antônio, e tinha o Big Boys em Cornélio Procópio. E nós dominávamos essa região aqui, o Apollus na região de Apucarana e meu xará, no norte velho. A gente tocava em todo o Paraná; dediquei 18 anos para essa banda.

Paraná Centro - Mas como foi a formação da banda?

Jair Silva - Meu pai foi músico e eu tocava bateria e juntamos com mais uns amigos que tocavam outros instrumentos, um deles é o Zé Cabelinho, que até hoje toca violão na igreja Bom Jesus. Éramos amigos e gostávamos de fazer serenata e, um dia, decidimos montar a banda, porque aqui não tinha.

Paraná Centro – Como era Ivaiporã?

Jair Silva - Ivaiporã não tinha nada, só existia a Rua Santa Catarina, e tinha a pensão, que era cheia de gente, que era da Dona Arlete, mulher do Flávio Teixeira. Tem até hoje aquela casa de madeira e do lado de baixo tinha um bar, onde as pessoas paravam para tomar café; e onde hoje é o Banco do Brasil, tinha um hotel de madeira, que era do seu Merico. Depois de um tempo, quem veio cuidar do hotel foi a dona Felicita Rother, mãe do Adail Bolívar Rother, e ela ficou o resto da vida naquele hotel, que era cheio e gente. Tinha um movimento grande de gente que vinha para comprar terra. O meu primeiro voto foi em Ivaiporã, para o Maneco Rocha, que por sinal foi um dos melhores prefeitos da cidade, porque ele não tinha nada na mão. A Companhia Ubá ajudou e deu as máquinas para ele, eram alguns equipamentos velhos, mas que ajudaram para que o município começasse a crescer. Ivaiporã evoluiu muito.

Início da construção Substação de Furnas

Início da construção Substação de Furnas

Paraná Centro - Qual o fato foi mais marcante para o senhor na história de Ivaiporã?

Jair Silva - O fato mais marcante foi quando chegamos de mudança e ficamos no hotel e, no outro dia cedo, fomos descarregar a mudança na casa. E chegando lá, descemos na represa e meu primo foi nadar, ele era muito brincalhão, achamos que ele estava brincando, mas ele de fato estava se afogando, e morreu na represa; esse fato me marcou. Quando meu pai chegou para construir a usina, a represa já estava pronta, já existia a caneleta de madeira que levava até o caracol que direcionava a água para a turbina, faltava fazer a barragem de pedra e instalar. A qualidade das construções da época era muito boa. A Igreja Bom Jesus, por exemplo, foi construída há mais de 50 anos e pode olhar que o forro está prefeito e as paredes não têm nenhum trinco. A faculdade e o colégio das irmãs também estão perfeitos, pois a base era feita de pedras. Fazíamos uma valeta grande e a pedra era colocada como base. Era só passada uma viga de concreto e assentado tijolo em cima.

Paraná Centro - Como o senhor vê Ivaiporã, hoje?

Jair Silva - Ivaiporã é tudo para mim. Criei aqui a minha família, meu pai viveu aqui, e algo mais importante que é a amizade que temos; só tenho que agradecer a Deus por morar aqui, porque foi aqui o começo da minha vida, onde consegui tudo com muito suor.

Maneco Rocha, Rúbens Novich e José Clarimundo Filho

Maneco Rocha, Rúbens Novich e José Clarimundo Filho

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