Geni Valotto fala da trajetória em sítio em Ivaiporã

Geni Valotto

Geni Valotto

A pioneira Geni Valotto nasceu em Apucarana, no dia 4 de setembro de 1946, sendo a mais velha de seis irmãos do casal Vergílio e Maria José Gonçalves. Veio para Ivaiporã em 1957, aos 11 anos de idade, e casou-se em 1962 com o marido Alécio, que havia adquirido um terreno de 5 alqueires no Alecrim. Da união com o marido, que faleceu há 12 anos, nasceram os filhos Maria Aparecida, José Antônio, Sonia, Jair Celso, Sirlene Fátima e Luiz Fernando; além de 12 netos e 2 bisnetos. Em entrevista, Geni recordou os tempos difíceis no sítio da família e a chegada na cidade após o marido ficar doente.

Paraná Centro – A senhora é nascida em Apucarana. Que lembranças têm da infância naquele município?

Geni Valotto – Desde os 7 anos de idade, eu ajudava minha mãe a cuidar da casa e cozinhar para que ela pudesse trabalhar lavando roupa do meu pai, minha e dos meus cinco irmãos, na minado rio. As roupas eram lavadas, batidas na tábua, fervidas para poder limpar. Elas eram fervidas na lata na beira do rio, mas era necessário andar 2 quilômetros para chegar até o rio. Por isso, me recordo que estudei somente até a metade do 2º ano do ensino fundamental.

Paraná Centro – Quando a senhora chegou a Ivaiporã com a família, e que tipo de dificuldades enfrentaram?

Geni Valotto – Viemos para Ivaiporã em 1957, quando eu tinha 11 anos de idade, porque era um lugar onde estava vendendo loteamentos e um vizinho nosso, que era o corretor das terras, indicou para o meu pai, que veio comprar. No entanto, não havia sequer escola para nós estudarmos. Era um tempo em que existiam poucos lugares que já tinham sido abertos no mato como, por exemplo, no Jacutinga, Alecrim e Barraquinha.

Paraná Centro – Então vieram para morar no sítio?

Geni Valotto – Sim, o corretor chamado Valter, que fez a indicação, disse que as terras eram boas e meu pai comprou um terreno de 5 alqueires no Alecrim, sendo que o lugar tinha mato em pé e água do córrego. A família Galvão, que residia nessa propriedade, nos emprestou um ranchinho para morar de julho a dezembro daquele ano, até que meu pai terminasse a construção do biombo, onde vivemos por aproximadamente 20 anos, até vender para o meu tio e comprar uma propriedade no Banco de Areia. Nesse período, até meu pai derrubar o mato, plantar e arrumar uma casa, nós íamos, diariamente, 2 vezes por dia levar comida para ele.

Paraná Centro – Quando seu pai terminou de desbravar aquela mata fechada, era para plantar que tipo de culturas?

Geni Valotto – Ele plantou café, arroz, feijão, milho, porque não existia soja ainda naquele tempo. Meu pai fazia todos nós trabalharmos de enxada na mão, na roça de café.

Paraná Centro – Qual era a diversão naquela época?

Geni Valotto – Não tinha aonde ir, a não ser na igreja, na Barraquinha, que ficava distante do Alecrim, e o padre ia rezar missa três vezes por ano, nos meses de janeiro, maio e outubro. Meus pais Vergílio e Maria José Gonçalves ajudaram na construção daquela igreja e o meu sogro ajudou na construção da igreja do Alecrim.

Paraná Centro – Onde a senhora foi morar quando se casou?

Geni Valotto – Só atravessei o rio e fui morar no sítio do meu sogro, aos 16 anos, quando casei com meu marido Alécio, e onde fiquei até vir morar na cidade, há 27 anos.

Geni e Alecio Valotto

Geni e Alecio Valotto

Paraná Centro – Como conheceu seu marido?

Geni Valotto – Ele era vizinho da nossa propriedade, o conheci quando tinha 13 anos, casei aos 16, e vivemos 44 anos juntos até ele falecer.

Paraná Centro – E o que se plantava no sítio do seu sogro?

Geni Valotto – Plantamos café, milho, feijão, girassol e algodão. Dependendo do que desse mais lucro, nós plantávamos.

Paraná Centro – Que lembranças guarda da época em que morou no sítio na localidade do Alecrim?

Geni Valotto – Foi um período de muita dificuldade que meu pai viveu, pois precisava pagar as prestações do sítio e ainda sustentar seis crianças. Outra lembrança é que para vir até Ivaiporã era preciso andar 12 quilômetros em cima de uma carroça, com as rodas duras e que era puxada no lombo de um burro. Os médicos que já residiam aqui eram os doutores Luiz e Nércio, depois de algum tempo chegou o doutor Akira, que alugou um hotel velho, onde atualmente é a loja Samek Calçados, para instalar o hospital dele. Em 1965, quando o município estava dando seus primeiros passos, foi instalado o Hospital Bom Jesus, mas só havia uma farmácia e ainda não se via carros. Os primeiros moradores que compraram jipes foram os senhores Gentil do Posto e Hermínio Gamba. Já os funcionários da Comercial Ivaiporã trabalhavam com um carroção puxando areia, pedra e cimento. Onde é a Rua Santa Catarina, existia um comércio de secos e molhados, onde eram vendidos roupas, calçados, mantimentos.

Paraná Centro – Quanto tempo demorava o trajeto de 12 quilômetros entre o sítio e a cidade?

Geni Valotto – Demorava seguramente mais de 1 hora, porque meu pai sempre trazia a carroça carregada e era preciso passar com o burro por dentro do rio para chegar até a cidade, que ainda não tinha escola e a igreja Bom Jesus era de madeira.

Paraná Centro – E qual a razão de ter mudado do sítio para a cidade, há 27 anos?

Geni Valotto – Meu marido sofreu um derrame e não podia mais trabalhar, e a como os filhos homens já tinham casado e o sítio foi vendido, após a morte da minha sogra. Isso nos obrigou a pegar a herança, comprar uma casa e vir para a cidade.

Paraná Centro – O que foi feito do sítio do Banco de Areia pertencente a seu marido?

Geni Valotto – O meu genro cuidava dos 3 alqueires, mas depois que meu marido ficou doente, o sítio foi arrendado.

Paraná Centro – Como era a vida do casal aqui na cidade?

Geni Valotto – Foi um período difícil até meu marido se aposentar por invalidez, porque os recursos eram escassos e a prioridade eram os remédios dele, além de água, luz e comida.

Paraná Centro – Nesses mais de 60 anos morando em Ivaiporã, como tem acompanhado o desenvolvimento do município?

Geni Valotto – Desde que cheguei aqui, vejo que Ivaiporã cresceu e se desenvolveu bem, especialmente na questão de comércio e desenvolvimento urbano. Acredito que toda essa história que minha família construiu valeu a pena, e sempre falo que não abandono essa cidade por nada, e me considero filha de Ivaiporã porque moro aqui desde os 11 anos.

Pioneira com os filhos

Pioneira com os filhos

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