Mulheres comentam sobre trabalho no campo

Tatiane Mattei está promovendo o cultivo de melancia em estufa

Tatiane Mattei está promovendo o cultivo de melancia em estufa

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março, o jornal Paraná Centro conversou com quatro mulheres que trabalham na atividade rural. Quando se fala em agricultura, a imagem que se tem é do homem do campo, que trabalha de sol a sol para produzir alimentos. No entanto, as mulheres desempenham um papel fundamental, não apenas nos cuidados com a casa, mas também na produção agropecuária.

Um desses exemplos é a agricultora Odete Boing Mattei, 69 anos, produtora na localidade de Sabugueiro, município de Ivaiporã. Casada há 52 anos com senhor Venício Mattei, ela é mãe de 6 filhos e, desde os 6 anos de idade, trabalha no campo. Mesmo aposentada, ela não deixou a atividade rural e tem suas obrigações diárias como a capina da horta e da plantação de mandioca, o trato dos animais e a ordenha das vacas, que hoje é feita de forma mecanizada.

Com poucas oportunidades para estudar, Odete Mattei completou apenas o segundo ano primário; como era a filha mais velha de uma família de 12 irmãos, teve que se dividir entre cuidados da casa, dos irmãos menores e ainda sobrava um tempo para a lida no campo. “Eu ia para a roça, carpir com a enxada e plantar com a maquininha”, lembra a pioneira, que chegou a Ivaiporã em 1950.

A agricultora casou aos 17 anos e passou dividir com o marido o trabalho no campo. Ela comenta que o fato de ser mulher nunca a impediu de realizar nenhuma atividade agrícola. “Eu ajudava a descarregar carretas com sementes, erguer os fardos da produção e mexer com os animais, tanto que, na minha segunda gestação, eu estava na roça, quando comecei a sentir as dores do parto”, relata.

Odete Mattei lida diariamente com a produção de leite

Odete Mattei lida diariamente com a produção de leite

Além dos afazeres diários, a agricultora ainda tem duas paixões, que é o cuidado com as orquídeas e o futebol. Junto com as filhas, a agricultora teve por muito tempo uma equipe de futsal, que disputou partidas amistosas e torneios em Ivaiporã e região. “Se deixarem, jogo futebol até hoje”, brinca.

A produtora rural Agda Sena Lara, 48 anos, é filha única e teve que assumir, ainda adolescente, a administração da propriedade dos pais, na localidade de Xaxim, município de Pitanga. “Meu pai era analfabeto e eu comecei a administrar, e sempre percebi que as pessoas admiravam por estar à frente da propriedade e sempre me vi como uma mulher agricultora”, comenta.

A primeira lembrança que ela tem da atividade no campo era ajudar a mãe a tirar leite, com as vacas alimentadas com milho servido em balaios. Ela lembra que não tinha silagem como agora e que uma produção acima de 3 litros de leite por vaca era muito boa. Como a propriedade ficava perto da cidade, Agda Lara sempre ajudou o pai a vender os produtos da roça na cidade, e participou por muitos anos da feira que era organizada pelo Sindicato Rural de Pitanga.

Quando se casou, Agda continuou administrando a propriedade, mas divide com o marido os afazeres da roça. “Eu fico com o trabalho mais leve e ele com a parte mais pesado; eu acho que as mulheres podem sim tomar a iniciativa e acreditar que são capazes de fazer tudo o que têm vontade”, frisa a produtora.

Quando era adolescente, Agda sofreu um acidente com um animal, que feriu suas costas e, desde então, precisa tomar alguns cuidados no trabalho mais pesado, como o uso de medicamentos e também de massagens. “Apesar disso, nunca tive nenhum impedimento em fazer qualquer tipo de atividade no campo”, ressalta a produtora.

Aline Spiti compartilha atividades na rede social

Aline Spiti compartilha atividades na rede social

Tatiane Venâncio da Silva Mattei, 32 anos, já fez o magistério, mas nunca saiu do sítio. Quando era solteira e morava com os pais, na propriedade no Bairro dos Silva, sempre ajudava no trabalho de capina. Quando se casou e mudou para o sítio na região do Sabugueiro, teve que aprender a trabalhar com gado de leite. “Hoje, temos 14 vacas leiteiras, com uma produção diária média de 160 litros por dia”, relata. Ela lembra que, apesar de ter estudado para ser professora, nunca pensou em deixar o campo. Além de cuidar da produção leiteira, Tatiane Mattei também tem a dupla jornada de dona de casa e mãe e ainda discute com o marido os projetos para o futuro do sítio. Há cerca de 4 anos, eles construíram uma estufa para o plantio de tomates e, agora, no espaço, estão cultivando melancia. “Todas as decisões em casa são tomadas em conjunto e eu tento, na medida do possível, ajudar nas atividades do campo”, comenta. No entanto, ela relata que ainda percebe certo receio por parte de algumas pessoas, quando começa a tomar a frente de algumas questões da propriedade. “Sempre as coisas são colocadas para o homem, mas acho que a mulher tem todas as condições de assumir esse papel, pois é mais focada e determinada”, resume.

A jovem Aline Ferreira Spiti, 23 anos, compartilha em suas redes sociais as imagens do trabalho no Sítio Boa Esperança, na localidade de Água da Laranjeira, em Ivaiporã. A propriedade é toda voltada à pecuária leiteira e, atualmente, a jovem cuida da produção do leite, enquanto o pai e o irmão focam mais no cultivo do milho, voltado para a alimentação do gado. “Cresci vendo meu pai trabalhando com o gado de leite; no começo, a ordenha era manual e com poucos animais, a produção era pequena e a gente processava o leite para fazer o queijo”, comenta. Apesar de ainda ser muito jovem, Aline Spiti já pensa em assumir a propriedade, quando seu pai parar com o trabalho. “A mulher não tem papel só dentro de casa, ela pode crescer nesse meio, principalmente na produção de leite, pois é mais detalhista e tem uma percepção mais apurada com relação à saúde do gado, por exemplo”, observa. Ela acredita que ainda o meio rural tem preconceito com o trabalho da mulher no campo. “Quando vou comprar um insumo, por exemplo, percebo os olhares de desconfiança dos homens na cooperativa, mas levo de boa e mostro que sou capaz de fazer isso e comandar a gestão da propriedade”, comenta.

Ela destaca que pretende fazer a faculdade de medicina veterinária, para poder ajudar na propriedade rural e, quando questionada sobre o que pensa sobre constituir uma família, ela ressalta que não teria problema nenhum em morar na cidade, mas que continuaria trabalhando no campo. “Junto com meu irmão, pretendo dar continuidade ao trabalho do meu pai”, destaca.

Agda Lara administra a propriedade

Agda Lara administra a propriedade

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