Djair Fernandes fala sobre momento do setor elétrico no Brasil

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Durante uma rápida visita a Ivaiporã, o diretor de Operação e Manutenção de Furnas, Djair Roberto Fernandes, concedeu entrevista ao Paraná Centro. Atualmente ele exerce cargo de grande importância na empresa, que é a principal geradora e transmissora de energia elétrica no país. O complexo de Furnas conta com 51 instalações, entre usinas e subestações, e tem sob sua responsabilidade mais de 20 mil quilômetros de linhas de transmissão e cerca de 40% de toda a energia consumida no Brasil passa por alguns dos sistemas da empresa.

Djair Fernandes trabalhou em Ivaiporã por quase 20 anos, sendo chefe da subestação local de Furnas, antes de ser transferido para o Rio de Janeiro, em 2004. Há cerca de 1 ano foi designado para o cargo que ocupa na diretoria executiva na empresa, onde é responsável direto pelo trabalho de cerca de 2 mil pessoas.

Além de falar um pouco sobre sua vida em Ivaiporã, ele analisa o momento do setor elétrico no Brasil e também sobre a possibilidade de construção de usinas de geração de energia no Rio Ivaí.

JPC - Quando foi sua vinda para Ivaiporã?

Djair Fernandes - Vim para Ivaiporã em 1985, quando entrei em Furnas. Na época, trabalhava em outra empresa em Mato Grosso do Sul e vim para exercer a função de engenheiro do sistema de comunicação. Fiquei por 19 anos na subestação de Ivaiporã e sai em meados de 2004, quando fui promovido a gerente de operações em Foz do Iguaçu. Um ano depois me convidaram para ir para o Rio de Janeiro, onde fui trabalhar em outras funções. Faz um ano que assumi a diretoria operacional.

O rio significa potencial energético e não explorar isso é deixar de lado uma fonte mais barata de energia e escolher outra mais cara”
Djair Fernandes

JPC - Mesmo no Rio de Janeiro há muitos anos, você tem acompanhado o desenvolvimento de Ivaiporã?

Djair Fernandes -Quando cheguei em 1985, a cidade viveu vários ciclos de altos e baixos, mas nos últimos anos, a transformação de Ivaiporã foi bastante interessante e a cidade voltou a ser importante, bonita e bela, onde os empresários estão voltando a investir em função dessa melhoria. Temos que parabenizar o ex-prefeito Gil, que transformou essa cidade, e ao prefeito Miguel Amaral que vem continuando esse trabalho por Ivaiporã.

JPC - Qual a importância da subestação de Furnas de Ivaiporã para o Brasil?

Djair Fernandes - A geração de energia de Itaipu é feita em duas partes, uma transmitida para o Brasil em corrente contínua e a outra parte em corrente alternada. Essa em corrente alternada passa toda pela subestação de Ivaiporã. Aqui ela se conecta com a Eletrosul para o escoamento para a região sul e outra parte continua para a região metropolitana de São Paulo, que é o grande polo consumidor de energia do Brasil. Ela representa um ponto de interligação do sistema elétrico, como um dos mais importantes do Brasil, pelo grande volume de energia e pela conexão com esses dois sistemas, que são os grandes consumidores em todo o Brasil. Ela é considerada um ponto de segurança nacional, tanto que o Exército faz manobras constantes na subestação.

JPC - Existe uma discussão na região sobre o barramento do Rio Ivaí, para a geração de energia. A principal preocupação é ambiental, já que as barragens impediriam a piracema. Qual sua visão sobre esse assunto?

Djair Fernandes -O Brasil é um país diferenciado no mundo, em função dos grandes rios que cortam seu território. E rio significa potencial energético e não explorar isso é deixar de lado uma fonte mais barata de energia e escolher outra mais cara; qualquer outra fonte que não seja a água é mais cara. Na minha visão, não se trata de escolha, e sim de usar aquilo que a natureza nos proporcionou, e utilizar o recurso da água. Evidentemente que, tanto construir uma usina, como fazer uma linha de transmissão, vai causar impacto no meio ambiente, o que pode ser suavizado, de forma que os órgãos reguladores e fiscalizadores impõem às concessionárias. O dano que ocorreu em uma parte é compensado em outro local, fazendo com que o meio ambiente não perca em sua totalidade aquilo que o impacto ambiental causou. Com relação ao Rio Ivaí, ainda quando morava aqui, já sabia que existia esse estudo de tentativa de aproveitamento e, pelo que tenho conhecimento, inicialmente, trata-se de uma geradora de pequeno porte, uma PCH (Pequena Central Hidrelétrica) e, mesmo assim, vai ter um reservatório que vai manter uma parte mais alagada. No entanto, ela traz o conveniente de regularizar a cheia, minimizando os impactos na sequência do rio. Eu vejo isso com bons olhos, aproveitar os recursos e suavizar os efeitos que irão ocorrer de outra forma. Na questão da subida dos peixes para a piracema, existem, hoje em dia, recursos tecnológicos que proporcionam que os peixes migrem da parte baixa para a parte alta. A usina de Itaipu é referência em escada de peixes.

JPC - A existência de usinas mais próximas, minimiza a questão de blecaute, mesmo com o sistema de transmissão de energia sendo integrado?

Djair Fernandes - De fato minimiza, porque tendo fontes mais próximas você tem menos instabilidade no sistema; também se explora os recursos que estão mais próximos e ficam mais baratos, porque a linha de transmissão é menor, pois a medida que se tem que buscar recursos mais longe, as linhas de transmissão, que serão longas, tornam-se mais caras, que são os exemplos de Santo Antônio e Girau em Rondônia, Teles Pires no Mato Grosso, Belo Monte no Pará, e as usinas que serão construídas no Rio Tapajós, que demandarão linhas enormes e com custos maiores; no entanto, também não temos potencial hidráulico de grande volume nas regiões sul e sudeste.

JPC - Como você vê a possibilidade de privatização da Eletrobrás?

Djair Fernandes - Como funcionário de Furnas há 32 anos, não me sinto muito bem em ver a empresa tendo essa mudança de mãos, de forma tão dramática, tendo em vista que a energia elétrica é um fator produtivo e de necessidade básica da sociedade, portanto precisa ter uma mão mais próxima do Estado e não apenas de governo. A privatização, conforme temos visto nos jornais, pode ter apenas um efeito econômico imediato e talvez depois tenhamos uma conta muito alta a pagar e isso não parece que está claro para todos. Não conseguimos enxergar essas coisas bem claras e, em função disso, é difícil ter uma opinião, se a privatização será benéfica para o governo ou para a sociedade. Eu ainda acho que manter na mão do Estado é a melhor opção, encontrando uma opção econômica para acertar as questões macros do Governo Federal.

JPC - Qual o futuro da geração de energia elétrica no Brasil?

Djair Fernandes - Acredito que teremos uma matriz energética muito interessante. A energia eólica representa, hoje, um percentual bastante alto do consumo do Nordeste, onde se concentram os maiores parques eólicos, tendo em vista que lá estão os melhores ventos para produção de energia elétrica e isso vai fazer a geração crescer em uma proporção relativamente alta; mas essa matriz é para que tenhamos menos dependência da geração hidráulica e possa proporcionar, à medida que uma falte, que a outra complemente, e acho que teremos ainda, no Brasil, um avanço da produção de energia elétrica bastante intenso, já que o país está em regime de desenvolvimento muito alto.

Rosália Vilas Boas Fernandes e Djair Fernandes durante visita ao Paraná Centro

Rosália Vilas Boas Fernandes e Djair Fernandes durante visita ao Paraná Centro

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